domingo, 30 de dezembro de 2007

Enfim...

Está quase. Os fundamentalistas podem começar a preparar as garrafas.
Daqui a umas horas, nesta sociedade cada vez mais opressiva e segregadora, os fumadores passam a ser considerados, oficialmente, um grupo de malfeitores e de personas non gratas à comunidade.
A Lei 37/2007, de 14 de Agosto, que entra em vigor no primeiro dia de 2008, define os locais onde é proibido fumar, ou seja, quase todos: serviços públicos, locais de trabalho, estabelecimentos de saúde, estabelecimentos de ensino, locais destinados a menores de dezoito anos, recintos de espectáculos, estabelecimentos hoteleiros, restaurantes, cafés, bares, discotecas, etc.
Mas há excepções nesta lei que até parece simpática. A lei permite, por exemplo, aos responsáveis dos restaurantes, bares e discotecas, a possibilidade de optarem por uma outra solução: abrir o espaço a fumadores e não fumadores (no caso de áreas destinadas ao público inferiores a 100 metros quadrados) ou, criar um espaço destinado especificamente a fumadores (no caso de áreas destinadas ao público superiores a 100 metros quadrados).
O problema é que quem quiser aceitar os fumadores, terá que fazer obras a um custo elevadíssimo e sujeitar-se às inspecções da ASAE (qualquer dia sou capaz de falar nisto). Logo, como mais vale um pássaro na mão do que dois a voar, a maioria vai preferir, estou convicto, colocar à entrada dos estabelecimentos, um cartaz com uma cruz em cima dos cigarros.
Anda tudo com fobias. Qualquer dia ainda proíbem as pessoas de usar perfumes intensos.
Parece estarmos a caminhar para uma ditadura de costumes. Julgo por isso fundamental a necessidade de se estabelecerem limites à intromissão do Estado na vida dos cidadãos, sob pena da nossa vida se arriscar a ficar sem sabor e sem jeito. Parece-me evidente que a salvaguarda dos direitos dos não fumadores não deve ser feita à custa dos direitos dos fumadores. Como dizia o meu amigo Afonso Candal, “Fumar não é uma actividade ilegal. É um bocado estúpida, mas não é ilegal”.
Está certo que ninguém tem de levar com o fumo dos outros, mas daí até não respeitar a vontade daqueles que não se importam de estar num local cheio de fumo (como no meu caso), parece-me mal.
Querem-nos tirar o prazer dos alimentos tradicionais, do enchidos, do queijo da serra, dum bom charuto à mesa de um bom restaurante, acompanhado por um copo de tinto “la Rosa” – Reserva do Douro.
Enfim, os fundamentalistas estão a tomar conta da sociedade. Qualquer dia, somos bem capazes de andar pelas ruas tristes e frios, com um ar pálido como os nórdicos mas... saudáveis...
Qualquer dia vão conseguir que a nossa vida fique tão insossa tão insossa e sem uma pitada de sal que... até nem dará prazer sorrir.
Enfim...

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Breve nota

Surpresa agradável.
Hoje, ao abrir este espaço, verifiquei a existência de dois simpáticos comentários do ALA – amigo de outras andanças – facto demonstrativo de que, a conta gotas, ainda há muito boa gente que vai tendo a paciência de ler as minhas “certas confidências”.
Gostei especialmente do seu comentário ao post “Futuro...”.
Se há pessoa que nesta matéria possui uma coerência acima da média é, de facto, ALA.
Não raras as vezes, alertou-me para a importância da competitividade e da diferenciação, enquanto base fundamental para o nosso crescimento profissional ou ainda do desenvolvimento social e económico do país.
É de pessoas como ALA, que pensam o Futuro não só numa lógica tecnocrática e tecnológica, mas também através de uma visão humanista e diferenciada, que o país necessita.
E ele, como saberá, está no local certo para a formar os Homens e Mulheres do Futuro. Estou certo que é isso que acontece...

- Volta sempre.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Futuro...

A História faz-se de futuro.
E o futuro, que tende a ser a contestação da estética tradicional, é a tecnologia, é a rapidez, as novas formas, os novos modelos, é a adopção de recursos que a ciência e a tecnologia põem ao nosso dispor, é a procura da perfeição. Futuro é aproveitar toda esta simbiose.
Futuro é ainda opinião, é uma forma de estar.
Futuro suscitará sempre dúvidas. Terá sempre opositores. E consequências.
Por isso, o futuro, por muito que pareça estranho, é "obrigar" a quem pensa o futuro, à resolução dos problemas sociais, da destruição dos ecossistemas, da falta de qualidade urbana das nossas cidades, do direito de todos a uma vida condigna.
Que quem pensa o futuro, ouse inovar, com formas e métodos que fiquem para a história. Em métodos que assentem no respeito pelos outros. Em respeito pela Humanidade...

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

"Uma verdade inconveniente"

(...)

“A nossa crise climática pode, por vezes, parecer-nos estar a acontecer lentamente, mas, na verdade, está a desenrolar-se muito rapidamente e tornou-se uma verdadeira emergência planetária.
A expressão chinesa para crise é formada por dois caracteres. O primeiro é um símbolo de perigo, e o segundo um símbolo de oportunidade. A fim de enfrentarmos o perigo que nos espreita e de ultrapassá-lo, temos de reconhecer, em primeiro lugar, que estamos perante uma crise.
Porque será, então, que os nossos lideres parecem não ver esses sinais de alerta? Estarão a resistir à verdade, porque sabem que no momento em que a reconhecerem terão de enfrentar o imperativo moral de agir? Será apenas mais simples ignorar os avisos?
Talvez, mas as verdades inconvenientes não desaparecem apenas porque não são vistas. De facto, quando não lhes damos resposta, a sua relevância não diminui, aumenta.”


(...)
Al Gore

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

A hora do Norte?

Pela primeira vez, parece-me, o Norte começa a querer demonstrar que, afinal de contas, também há vida para além da Capital.
Nesse preâmbulo, a famosa GAMP (grande Área Metropolitana do Porto), e os seus respectivos “municípios associados”, trabalham já, afincadamente, na indicação de potenciais infraestruturas de natureza estruturante ou de dimensão metropolitana, que possam vir a ser contempladas no Quadro de Referência Estratégica Nacional (vulgo QREN).
O facto novo é, sem dúvida, a antecipação que parece estar a germinar nos diferentes municípios, fazendo antever que, desta vez, o Governo vai ter mesmo de se ver com o norte do país e mais concretamente com a região do Grande Porto.
Julgo que valerá a pena. Ao invés de esperarmos pela iniciativa da Capital e de nos lamentarmos constantemente pelo “não investimento” no Norte, poderão ser apresentados projectos e iniciativas de natureza e dimensão regional, o que permitirá a existência de uma forte capacidade reivindicativa desta região.
Talvez seja isso que tem faltado durante estes anos todos ao Norte: a apresentação de programas ou projectos de desenvolvimento abrangentes e a formação dos seus próprios líderes no sentido de desencadearem protestos “a uma só voz” na defesa dos seus interesses (região), convencendo ao mesmo tempo, o país, que vale a pena avançar com a Regionalização.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Menos para ser Mais...

Em Portugal, há fogos a mais.
O mercado imobiliário oferece, sem que a procura o peça, habitação, escritórios, serviços, comércio, facto que demonstra que, às tantas, não nos sabemos organizar.
Dizem alguns que, este frenesim construtivo, surge pelas melhores razões, nomeadamente em nome da chamada recuperação económica.
O problema é que a cidade, enquanto espaço de referência e de experiência, fica de lado, apesar de, não poucas as vezes, haverem esforços pontuais no sentido de a fazer reviver e de a equipar.
Por outro lado, temos um país onde se regulamenta por tudo e por nada – são milhares de decretos, leis, portarias e outros documentos aplicáveis a planos, projectos ou obras. O mais difícil parece ser atingir resultados positivos naquilo que transformamos e construímos. Talvez seja tempo do legislador “descer” à terra e tentar regulamentar de forma mais simples, articulada e compilada.
A juntar a tudo isto, temos um inadmissível sistema de financiamento que alimenta, incrementa e prolonga a dependência do endividamento, numa clara guerra aberta às classes menos favorecidas e que visa o lucro e somente o lucro vergonhoso da banca e seus responsáveis.
Se, dado o excesso de construção e de área legalmente apta para construção presente nos actuais Planos Directores Municipais do país, fosse impossibilitado o aumento de novas áreas de construção às actualmente construídas e, por outro lado, se incentivasse, através de critérios objectivos de planeamento, a renovação do parque habitacional existente e, caso ainda, se procedesse a uma razoável e programada demolição das áreas degradadas, talvez pudesse resultar num amplo processo de requalificação paisagística, urbana e ambiental do território.
Portanto, induzir a redução da especulação imobiliária, através do estabelecimento de uma quota de edificação, a qual seria usada também como método de distribuição geográfica da população, bem como incentivar o arrendamento de habitação permanente, podem ser medidas que permitam melhorar o desempenho do país. Libertaria grandes recursos financeiros para um efectivo desenvolvimento produtivo e económico do país, ao mesmo tempo que, resultaria num claro ganho em termos de qualidade e estabilidade da construção.
Mas...

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

O artesanato pode sobreviver ao design?

Estamos num tempo de franca globalização. Tudo se vende.
Certo tipo de artesanato medieval continua a vender-se nos locais especializados, até mesmo ao lado de produtos altamente sofisticados. No entanto, a verdade é que muitos desses produtos tradicionais já perderam a sua pertinência e carácter funcional, ficando apenas resignados ao seu papel meramente decorativo ou, no limite, de apetrecho de natureza kitsh (palavra sempre em voga nas saudosas aulas de Teoria do Design).
Serve esta pequena nota introdutória (ou conclusiva) para que se perceba que só a readaptação da cultura rural ou tradicional à urbanidade poderá fazer subsistir o artesanato.
Toda a gente sabe que a “selecção cultural” fará desaparecer toda e qualquer cultura que resista à evolução. É assim nos objectos, na música, na arquitectura.
O problema do artesanato é que não possui condições internas de adaptação e de redesenho em tempo útil, atendendo à lentidão do seu processo evolutivo bem como ao deficit de sensibilidade aos requisitos de natureza simbólica que, cada vez mais, o público contemporâneo procura.
No entanto, entramos aqui num paradoxo:
- Ao querer-mos que o design contribua para a preservação e para a evolução do artesanato, estamos, ao mesmo tempo, a fazer com que a arte tradicional se perca.
Assim, sendo o design uma forma evolutiva do artesanato, torna-se fundamental encontrar formas que atenuem as perdas da cultura tradicional directamente relacionadas.
Difícil?
- Claro que sim…

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Plano de Revitalização do Centro Histórico da Feira- - Porque não?

De acordo com as recomendações internacionais, e motivados pelo processo da unificação europeia, na entrada do novo milénio, estamos conscientes de viver um tempo no qual as identidades, num contexto cada vez mais amplo, se personalizam e tornam cada vez mais diversificadas.
Cada comunidade, tendo em conta a sua memória colectiva e consciente do seu passado, é responsável pela identificação e pela gestão do seu património, desenvolvendo uma consciência e um conhecimento da necessidade de cuidar dos seus valores.
Este património não pode ser definido de um modo unívoco e estável. Apenas se pode indicar a direcção pela qual possa ser identificado, pois a pluralidade social implica uma grande diversidade nos conceitos de património concebidos por toda a comunidade; ao mesmo tempo, os instrumentos e métodos desenvolvidos para uma correcta preservação devem ser adequados à situação de mudança, sujeita a um processo de evolução contínuo. O contexto particular de escolha destes valores requer a preparação de um projecto de conservação, através de uma série de decisões de escolha crítica. Tudo isto se materializaria num projecto de restauro e reconversão de acordo com critérios técnicos organizativos.
Considerando o enquadramento urbanístico e arquitectónico do Centro Histórico da Cidade de Santa Maria da Feira, em que sobressai o equilíbrio do conjunto edificado que compõe toda a sua área urbana, bem como as obras de reconversão viária levadas a efeito pela autarquia, torna-se necessário a definição de algumas linhas de orientação para eventuais intervenções em edifícios desse núcleo antigo. Assim, na perspectiva de definir objectivos e métodos de actuação, dever-se-ia promover a elaboração de um estudo global que defina todas as regras de futuras intervenções (ao nível público e privado) e de tipos de ocupação a validar.

Assim, não seria de todo descabido, o lançamento de um PLANO DE REVITALIZAÇÃO E SALVAGUARDA DO CENTRO HISTÓRICO DA FEIRA, numa lógica de criação de um espaço urbano de vivência por excelência e que assuma o seu papel catalisador de dinâmicas culturais e comerciais que complementem a ocupação eminentemente habitacional e de serviços actualmente existente. A captação de espaços “âncora”, com a transformação de todo o centro histórico numa espécie de centro comercial ao ar livre, pode ser, sem dúvida, uma boa solução.
Em todo o caso, esse processo passará, eventualmente, pela observância dos seguintes princípios:

1. O património arquitectónico, urbano e paisagístico, assim como os elementos que o compõem, são o resultado de uma identificação com vários momentos associados à história e aos seus contextos socioculturais. A conservação deste património é o nosso objectivo.
2. A conservação pode ser realizada mediante diferentes tipos de intervenção, tais como o controlo do meio ambiental, a manutenção, a reparação, a renovação e a reabilitação.
3. A manutenção e a reparação são uma parte fundamental do processo de conservação do património. Por isso, há que informar, prever a possível degradação e tomar medidas preventivas adequadas, com base numa investigação sistemática, inspecção e acompanhamento.
4. Os projectos de restauro, de reconversão ou de construção, deverão basear-se na informação e conhecimento profundo dos imóveis e/ou da sua localização. Este processo deve incluir o estudo estrutural, análises de volumetria, significado histórico, artístico e sociocultural.
5. Nos projectos devem participar todas as disciplinas pertinentes, e a coordenação deverá ser efectuada por arquitectos.
6. Deve evitar-se a reconstrução no “Estilo do Edifício”. Se for necessário para o adequado uso do edifício, incorporar partes espaciais e funcionais extensas, deve-se, aí, reflectir a linguagem da arquitectura actual.
7. Qualquer intervenção deve estar estritamente relacionada com a sua envolvente.
8. Em caso de existirem escavações ou achados arqueológicos, deverá efectuar-se um levantamento e uma documentação exaustiva, a realizar por profissionais da área, com métodos e técnicas estritamente controladas.
9. A decoração arquitectónica, esculturas, pelourinhos, fontes, etc., que são parte integrante do património construído, devem ser preservados mediante um projecto específico vinculado ao projecto geral.
10. Os núcleos históricos (ruas ou aglomerados) devem ser encarados como um todo. Assim, os edifícios que constituem as zonas históricas podem não apresentar em si um valor arquitectónico especial, mas devem ser salvaguardados como elementos do conjunto.
11. No processo de transformação e desenvolvimento das zonas históricas, deve dar-se especial relevo ao rejuvenescimento da população que aí habita.
12. O turismo cultural, deve ser visto como factor positivo para a economia local, permitindo potenciar o investimento privado na revitalização e salvaguarda dos centros históricos.
13. Deverão estar equacionados todos os aspectos funcionais e de ocupação que potenciem a revitalização destas áreas.

Fica pois, lançado o repto...

Mais vale... não fazer contas?!

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A hora das Cidades... mas também das periferias.

A reabilitação urbana parece ter entrado no vocabulário a na agenda da nossa classe política. Efectivamente, com os programas Polis, desenvolvidos nas principais cidades do país ou ainda numas quantas cidades de dimensão média ou pequena, parece começar a dar algum resultado.
Mas, poder-se-á chamar a isso uma verdadeira Política de Cidades?
Julgo que a resposta, embora longe de um consenso, é bem capaz de resvalar para a seguinte consideração: uma verdadeira política urbana é muito mais do que uns quantos relógios a contar o tempo que falta para o final das obras ou do que umas centenas de metros de lancil de granito alinhados sob um desenho mais ou menos linear…
No entanto, seria bem pior se não houvesse nada.
Note-se que, nestas coisas, entendo o unanimismo, um tanto ou quanto desnecessário, senão mesmo desprezível …
Mas, dizia eu, a resolução que criou o programa Polis “assumiu” claramente que a vida urbana se foi tornando ao longo das últimas décadas, sinónimo de “ausência de espaços públicos de qualidade”, de “carência de zonas de lazer” e de “aumento dos problemas de congestionamento de trânsito”. Por outro lado (algumas) más opções urbanísticas conduziram à desvirtuação dos centros históricos tradicionais e levaram à criação de bairros dormitórios periféricos às cidades onde a qualidade de vida urbana é manifestamente insuficiente.
Assim, admitindo que este processo de “rejuvenescimento” pode ser considerado um ponto de partida para o desejável aumento da qualidade de vida urbana nas nossas cidades, importa por isso começar a pensar num modelo similar a adoptar à escala local.
Tenho dado por mim a perguntar-me, passe o pleonasmo, há quanto tempo não surge uma praça, um jardim, uma alameda, um espaço público de referência nas nossas terras? Há quanto tempo?
É... Não nos podemos esquecer que as terras serão lembradas no futuro, não só pelas suas gentes, mas também pelos edifícios, conjunto de edifícios ou espaços urbanos de qualidade e de vivência acentuada.
Foi assim em toda a história. Será assim no futuro.
Claro está que, para isso, é necessário pensarmos a “cidade” não só como o centro nevrálgico e político de cada concelho, onde (sobre)vive muita gente, mas, pelo contrário, definir redes operativas e sistemas integrados de espaços colectivos que relacionem o centro (ou centros) com as ditas “periferias” (freguesias…).
É que… Também há “massa crítica” para lá do horizonte… Da cidade.
Soluções?
Quem sabe definindo com as Juntas de Freguesia e com as suas gentes, opções de desenvolvimento urbano e prioridades na implementação das obras de qualificação necessárias à afirmação e valorização das suas respectivas centralidades. No fundo, dar vida aos centros (urbanos ou menos urbanos) das terras.
Paralelamente, porque estas estratégias só resultam se o “povo” estiver para aí virado, é necessário que se recupere aquilo a que eu pomposamente costumo “apelidar” de investimento voluntarista no tecido social de solidariedade. Em suma, pôr a malta a conviver, a falar, a viver…
Mas, para isso, é fundamental haver locais e espaços públicos… De qualidade.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

"Torcida"

"Mesmo antes de nasceres, já tinhas alguém a torcer por ti.
Havia pessoas que torciam para que fosses menino.
Outros torciam para que fosses menina.
Torciam para teres a beleza da mãe, o bom humor do pai.
Estavam a torcer para que nascesses perfeito.
E continuaram a torcer.
Torceram pelo teu primeiro sorriso, pela tua primeira palavra, pelo teu primeiro passo.
O teu primeiro dia de escola foi a maior torcida.
E o primeiro golo, então?
E de tanto torcerem por ti, tu aprendeste a torcer.
Começas-te a torcer para ganhares muitos presentes e apanhares o Pai Natal.
Torcias o nariz para os vegetais.
Mas torcias por hambúrgueres e refrigerantes.
Começaste a torcer por um Clube de Futebol.
Provavelmente, nesse dia, descobriste que há pessoas que torcem diferente de ti.
Teus pais torciam para comeres de boca fechada, tomares banho, escovares os dentes, estudares inglês e piano.
Eles só estavam a torcer para seres uma boa pessoa.
Teus amigos torciam para usares brincos, faltares às aulas, e dizeres asneiras.
Eles também estavam a torcer para seres uma boa pessoa.
Nessas horas, tu só torcias para não teres nascido.
E por não saberes pelo que tu torcias, torcias torcido.
Torceste para os teus irmãos se tramarem, torceste para o mundo explodir.
E quando as hormonas começaram a torcer, torceste pelo primeiro beijo, pelo primeiro amasso.
Depois começaste a torcer pela tua liberdade.
Torcias para viajar com a turma, ficar até tarde na rua.
Tua mãe só torcia para chegares vivo em casa.
Passaste a torcer o nariz para as roupas da tua irmã, para as ideias dos professores e para qualquer opinião dos teus pais.
Todo mundo queria era torcer o teu pescoço.
Foi quando até tu começaste a torcer pelo teu futuro.
Torceste para ser médico, músico, advogado.
Na dúvida, torceste para ser físico nuclear ou jogador de futebol.
Teus pais torciam para que essa fase passasse depressa.
No dia do exame para entrares na universidade, formou-se uma grande torcida.
Pais, avós, vizinhos, namoradas e todos os santos torceram por ti.
Na faculdade, então, era torcida para todo lado.
Para a direita, esquerda, contra a corrupção, a fome na Albânia e o preço do rissol na cantina.
E, de torcida em torcida, um dia tiveste um torcicolo de tanto olhar para ela.
Primeiro, torceste para ela não ter outro.
Torceste para ela não te achar muito baixo, muito alto, muito gordo, muito magro.
Descobriste que ela torcia igual a ti.
E de repente vocês estavam a torcer para não acordar desse sonho.
Torceram para ganhar o frigorífico, o microondas e a dinheiro para a viagem de lua-de-mel.
E daí para frente entendeste que a vida é uma grande torcida.
Porque, mesmo antes do teu filho nascer, já havia muita gente a torcer por ele.
Mesmo com toda essa torcida, pode ser que tu ainda não tenhas conquistado algumas coisas.
Mas muita gente ainda torce por ti!"

(Adaptado do poema original de Carlos Drummond de Andrade – Brasil)

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Às vezes...

De quando em vez, “torna-se importante” fazer um breve diagnóstico da sociedade em que vivemos – a tal sociedade globalizante, da modernidade e da cultura.

Mas, essa dita sociedade, a tal sociedade cosmopolita europeia, é progressivamente alienada, fruto da multiplicidade de problemas que nos rodeiam e que teimam em se perpetuar por esses tempos fora. Pelo menos, é isso que eu penso (às vezes) deste pequeno “paraíso” à beira mar plantado a que se chama Portugal.

A vida complica-se a cada passo e diariamente somos confrontados com problemas que não entendemos mas que no fundo fazem parte do nosso quotidiano. É porque há Ota; é porque não há Ota; é porque é Lisboa e deveria ser no Porto; é porque a instituição bancária deve atingir um score inigualável e lucros inimagináveis; é porque se perdoam dívidas de milhões; é porque o nosso salário mínimo é metade do dos nossos vizinhos espanhóis; é porque cada vez mais não temos privacidade; é porque há muitas “ASAE” por aí ao virar da esquina...
Ao nível regional, podemos dizer: é porque o metro só fica ali a “pisar” o Douro; é porque choveu em níveis anormais e entupiram-se as sarjetas; é porque as nossas estradas mais se parecem com os mais duros picaderos; é porque em pleno século XXI ainda não sabemos o que é o saneamento básico e o seu efectivo funcionamento; é porque a água das nossas fontes não nos oferece qualquer tipo de garantias; é porque cada vez mais, as nossas crianças e jovens não têm parques para se recrearem; é porque a deslocalização de uma qualquer indústria está eminente e amanhã poderá estar num outro país, deixando sem emprego várias centenas de famílias; etc, etc, etc...

O nosso país vive numa (in)cultura pós-ideológica, em que o discurso político praticamente não existe e quando o há, é desprovido de uma ideologia identificável e acima de tudo desprovido de paixão.
Desapareceram os conflitos ideológicos para se multiplicarem grupos ou grupinhos de interesses.
Infelizmente, da política parece restar a representação. Do desenvolvimento parece restar encenação...

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Mais uma vez, Niemeyer...

"Se minha música fosse monumento, teria os traços de Niemeyer. Teria as curvas livres e sensuais que contornam o corpo feminino, os rios, as nuvens, as montanhas e a natureza do meu país. O curso sinuoso da melodia, dos ritmos e das pausas contornariam cada curva e cada obra figurando um traço novo, contemporâneo, universal. Niemeyer é um dos nossos mestres, o símbolo de potencial realizado pelo Brasil, ele consegue traduzir em suas obras nossa brasilidade e nossa gente em todas as suas dimensões da vida nacional. Seu centenário muito nos dignifica e nos traz uma bagagem inestimável para a Cultura Brasileira".

por, Gilberto Passos Gil Moreira
(Ministro de Estado da Cultura do Brasil)

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

CO-INCINERAÇÃO GERAL

É um facto que Portugal, como qualquer outro país, produz resíduos industriais perigosos (RIP) a que é necessário dar um destino. Talvez a incineração não seja o melhor, mas é o que se faz em muitos locais e, nalguns casos, em unidades especificamente construídas para o efeito (Incineração Dedicada) e noutros, através da queima em cimenteiras (Co-Incineração).
Portanto, partamos do princípio que, a curto prazo só existirão estas duas alternativas. Há aspectos positivos e negativos em ambas. Assim, discuta-se o problema base.
Foi nomeada uma Comissão Científica Independente (CCI) que, depois de alguns estudos se pronunciou em favor da Co-Incineração, da queima em cimenteiras e, neste caso em particular, nas localidades de Souselas e Outão.
Parto do princípio que a comunidade científica terá toda a legitimidade para se pronunciar relativamente a este assunto, tanto na essência do problema como na sua localização. Se assim não fosse, mais valia que se deixassem de formar técnicos nas nossas universidades e, tudo poderia ser decidido ao sabor de uma qualquer pressão contestatária.
Também é verdade que entendo o pleno direito de todos os cidadãos discordarem e se for caso disso, participarem em manifestações de desagrado, conforme a linha do seu próprio pensamento. Aliás, não concebo a democracia sem esse pleno direito de participar na discussão e resolução dos problemas.
No entanto, depois de Souselas ser um dos locais escolhidos, levando a que os habitantes de Coimbra tivessem um acesso de indignação colectiva (bem como uma grande percentagem de portugueses), achei estranho que, pessoas com responsabilidades ao nível da sociedade, não viessem a público discutir de forma saudável o problema.
É que toda a gente se indigna por ver Souselas como um dos locais escolhidos para a Co-Incineração, mas ninguém se indigna por, nessa mesma localidade existir uma cimenteira e respectiva lixeira adjacente, bem como toda a poluição que daí advêm.
Gostava de ver esses indignados a defender com tanto afinco as linhas de água, a despoluição dos rios, a diminuição da emissão de fumos e dióxidos das indústrias poluentes, a eliminação de uma vez por todas das lixeiras a céu aberto.
Gostava de saber se essas pessoas fazem algum esforço para assegurar a famosa política dos 3 R’s, mesmo nas suas próprias casas (Reduzir, Reutilizar, Reciclar).
Gostava ainda de saber se, caso essa Co-Incineração fosse num qualquer concelho de Aveiro, os mesmos indignados teriam a mesma posição.
Não, o importante é que não seja em Coimbra, até porque esta cidade tem uma maneira de ser especial. Logo Coimbra que “nos deu” tantos doutores e páginas de literatura.
Em Souselas poderemos contar com uma excepção? A cimenteira pode produzir lixo a céu aberto desde que se não fale em co-incineração?
Só faltava os deputados da Nação e o Governo Central decretarem esta área com um regime especial.
Neste debate sobre a co-incineração há quase uma absoluta falta de razão.
Era preferível que se dessem explicações ao público em geral de quais são as verdadeiras vantagens e desvantagens deste processo. Era preferível que se começasse um trabalho de base nas nossas escolas, na nossa sociedade, no sentido de todas as pessoas se mobilizarem num verdadeiro espírito ecológico. O esforço que deveria ser feito era o de comunicar e fornecer todos os dados concretos acerca da problemática ambiental, a todos aqueles que, mais de perto irão viver o problema no seu dia-a-dia. As pessoas têm de se sentir seguras para acreditarem no processo.
Defendo que se invista na construção de unidades específicas para o efeito (Incineração Dedicada). Para isso, faça-se uma investigação e estudos rigorosos e comece-se a dar provas de que o ambiente é realmente olhado da forma como merece, ou seja, que o ambiente é visto como um factor basilar de desenvolvimento e de qualidade de vida dos cidadãos.
Para que estes processos resultem é necessário que as pessoas acreditem nos mesmos.
Nessa perspectiva, os organismos públicos têm de dar o exemplo, promovendo acções de sensibilização, acompanhamento e, como é evidente, obras de qualidade.

(algures em Janeiro de 2002)

"Esperança"

"Quero que sejas
a última palavra
da minha boca.
A mortalha de sol
que me cubra e resuma.
Mas como à despedida só há uma bruma
no entendimento,
e o próprio alento
atraiçoa a vontade,
grito agora o teu nome aos quatro ventos.
Juro-te, enquanto posso, lealdade
por toda a vida e em todos os momentos".

por Miguel Torga

(para que Caldas de S. Jorge possa, verdadeiramente, encontrar o seu desígnio...)

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Fazedores de Sonhos

Como dizia Le Corbusier, “...O objectivo da construção é manter as coisas de pé. O da arquitectura é emocionar-nos...”.
Uma ideia em arquitectura só tem existência plena quando é materializada pela construção. Os arquitectos, antes do mais, são criadores que podem tornar realidade as suas concepções de espaço e forma.
Neste processo, o papel do arquitecto é fazer coincidir dois universos muito diferentes: o da concepção e o da construção.
Se o universo da concepção é simbólico, abstracto e emotivo, o da construção é objectivo, material e concreto. Trata-se de “escrever poesia” com pedra, madeira, betão ou vidro.
Ao projectar, o arquitecto é sempre confrontado com a necessidade de descrever realidades que ainda não existem. Usam-se para isso meios de simulação como desenhos ou maquetas. Simulam-se realidades com outras realidades.
Mas, é também necessário justificar a concepção.
Como aquilo que desenhamos implica sempre em algo mais que o seu sentido evidente e imediato, a compreensão de um projecto só é atingida quando se descrevem significados e intenções, quando se explicam simbologias e desejos. São gestos pessoais, quase íntimos.
Ultimamente, a arquitectura tem sido motivo de referência nas capas de revistas e jornais no nosso país. Aliás, já não era sem tempo.
Na verdade, as pessoas começam a não ser indiferentes perante uma determinada obra, uma determinada construção, enfim, uma determinada concepção. Exemplo disso foi o que a Expo98 gerou no nosso país. Além de Ter projectado o nosso país a nível internacional, foi uma forma de recuperar parte de uma cidade que, dificilmente poderia gerar um desenvolvimento integrado e sustentado. Foi também uma grande manifestação do que de melhor se faz ao nível conceptual e tecnológico na área da arquitectura.
Mais recentemente, o Prémio Pessoa foi atribuído à arquitectura e mais especificamente ao arquitecto portuense Eduardo Souto de Moura. Apesar de ser a primeira vez que tal galardão é entregue a um profissional desta área, foi, sem dúvida, o reconhecimento de uma obra que, por incrível que pareça, é reconhecida no exterior muito antes de o ser em Portugal.
No nosso concelho existem também obras que, pela sua importância e qualidade arquitectónica merecem relevo. Estou a falar do mercado municipal, cuja concepção pertence ao grande mestre Fernando Távora, e que levou, em congressos internacionais de arquitectura - CIAM’S o nome da nossa terra a vários pontos do mundo e que ainda se vê presente em vários livros da especialidade. Realmente é uma grande obra. Uma obra que convida ao encontro das pessoas (assim se sente, quando se lá está). No entanto, penso também que tudo tem o seu percurso, tudo tem o seu tempo. A finalidade com que foi criado encontra-se agora um pouco infundada. O mercado, na verdadeira definição da palavra, não funciona (meia dúzia de vendedoras insistem em vender aos feirenses quilos de simpatia, legumes e fruta fresca e ainda algum peixe – honra lhes seja feita). Porquê, além desses comerciantes não o tornar num ponto de maior atractividade e um polo aglutinador de vivências e de encontros. Porque não dotá-lo de um bar/esplanada de qualidade?
Ainda no campo da arquitectura, e para finalizar, à semelhança do que escrevi à algum tempo, gostaria de deixar a sugestão de ser criado o Prémio Municipal de Arquitectura. Seria uma excelente forma homenagem a estas “estórias” e de incentivo aos jovens técnicos do nosso concelho no sentido de promoverem mais e melhor arquitectura.
De fazerem mais sonhos...

(Abril de 1999, in "Terras da Feira")

Mais Arquitectura

Nos últimos anos, a Arquitectura e o Urbanismo têm conhecido uma ampla divulgação o que desenrola muitas vezes bons e acesos debates.
De facto, a comunicação social, não deixa de dar atenção às obras e aos projectos mais interessantes ou polémicos.
Assim sendo, verifica-se um crescente diálogo entre a sociedade e a arquitectura (ou vice-versa) que há alguns anos não existia.
O ambiente também começa a ser discutido em larga escala sendo a sua inter-relação com a arquitectura e o urbanismo notória, ou não se preocupassem estas disciplinas com o quadro de vida das populações. Veja-se o caso dos molhes da Foz do Douro.
Este interesse público torna-se um factor essencial para que todo esse processo de (re)organização dos espaços e das vivências caminhe no sentido de salvaguardar a componente social que a arquitectura e o urbanismo devem assumir.
É verdade que a arquitectura não depende só dos Arquitectos. Ela tem de obedecer a “lógicas” de programas, a interesses dos investidores, e outros que, muitas das vezes podem chocar com aquilo que seria aceitável. Desde há alguns anos que a Associação dos Arquitectos, recentemente designada Ordem dos Arquitectos, se tem debatido para que haja uma maior intervenção dos seus associados em todo o tipo de obras e lhes seja dada independência profissional, clarificando e definindo assim a fronteira entre os mais diversos técnicos.
O que se tem passado, principalmente fora dos centros urbanos, é a proliferação de construções que escapam às boas intenções dos planos de urbanização, planos de pormenor e mesmo planos directores, projectos e construções de má qualidade, quase sempre feitos por amadores ou mesmo pseudo-profissionais sem as desejadas competências. Faltam os equipamentos, os espaços de recreio e ainda a necessária diversidade tipológica.
Apesar de muitas autarquias se estarem a esforçar para atenuar este mal, existem no entanto, marcas já difíceis de reabilitar.
Assim, ter-se-á que rever todo o processo de ocupação dos solos, com um planeamento e intervenção directa de arquitectos (que já começa a existir), os quais têm obrigação de contribuírem para uma melhoria do estado das coisas. Os centros históricos têm obrigatoriamente de deixar de ser locais onde a massificação desenfreada de construções chocam com os verdadeiros valores socioculturais das populações. Porque a arquitectura é mais do que a simples construção: tem aspectos de qualificação do espaço.
No nosso pais, temos arquitectos que se destacam a nível internacional, com a mais representativa figura de Álvaro Siza, muito bem cotado no ranking mundial; começam também a existir várias publicações nacionais e internacionais que reproduzem projectos portugueses, enfim, é a imprensa a dar o devido relevo.
É chegada, pois, a hora de reconhecer o interesse público pela Arquitectura enquanto arte e ciência, enquanto organiza, qualifica e humaniza o espaço. Exigir produções de qualidade através das respectivas responsabilidades.
Uma das coisas que me tem passado pela cabeça é a ideia de propor à nossa autarquia (Câmara Municipal de Santa Maria da Feira) a criação do PRÉMIO MUNICIPAL DE ARQUITECTURA, o qual poderá incentivar os profissionais do concelho ou as obras realizada no concelho, a uma maior qualidade e assim, influenciar e imbuir neste espírito as actuais e novas gerações.
Há muito que construir. Para isso os arquitectos deverão ser agentes privilegiados de intervenção através da interdisciplinaridade que hoje se exige. É preciso que o direito à arquitectura chegue a todos, dentro de um quadro de competitividade que tenha por critério a qualidade técnica e cultural.
Logo, mais arquitectura quer dizer também melhor arquitectura e maiores responsabilidades daqueles que concebem o espaço em que todos vivemos.

(Setembro de 1998, in "Terras da Feira")

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

CHE



"O Guerrilheiro Argentino começara por liderar um grupo com 23 Bolivianos, 16 Cubanos e 3 Peruanos, mas já eram menos de um terço. Quando caiu na emboscada de militares bolivianos e agentes da CIA, "Che" Guevara rendeu-se. Ao meio-dia de 9 de Outubro de 1967, o sargento Mário Terán apareceu-lhe à frente e Guevara disse-lhe: "Tenha calma e aponte bem. Você vai matar um Homem". Mas Terán disparou de olhos fechados.
Matou "Che", que tinha 39 nos e o projecto de levar a revolução à Bolívia, como o havia feito em Cuba".
Quarenta anos depois, o regime Cubano lembrou o seu herói.
("..." coisas da Sabado)

Hasta la Victoria Siempre

CIDADES... PARA TODOS

(Da memória à criação de uma forte identidade)

As cidades, como as civilizações, nascem, crescem, declinam e morrem quando lhes faltam os recursos que as mantêm vivas e, acima de tudo, quando não possuem um projecto de vida próprio.

A generalidade das cidades em que hoje vivemos, enquanto estruturas em permanente mutação, sofrem os efeitos das pressões submetidas pela sociedade, baseada na produção lucrativa e orientada para a sua maximização.

A diminuição do espaço disponível, nas zonas mais centrais das cidades, provoca o aumento do valor dos respectivos terrenos, ficando estes apenas ao alcance das actividades ligadas ao ramo imobiliário, relegando a primazia do espaço público para as periferias e, muitas vezes, para um segundo plano.

Por onde andam as Praças, as Avenidas, as Alamedas, os Largos, os Jardins, ... , verdadeiros exemplos de qualificação da cidade antiga?
Afinal de contas não serão, esses elementos urbanos, fundamentais para a definição de “memórias colectivas”, para a consciencialização global de melhores “vivências”?
Não serão este tipo de elementos urbanos os verdadeiros responsáveis pela identificação de um lugar? De uma Cidade?
- Julgo que sim...

No entanto, nos dias que vão correndo, a cidade convencional é estimulada a crescer irreversivelmente, quase “sem alma”, ao mesmo tempo que a concentração da população que nela encontramos, corre o risco de viver com a inexistência de um espaço vital e humanizado, cada vez mais impessoal, onde as pessoas se acotovelam nos passeios (quando estes existem) e o transito automóvel invade todos os lugares.

Portanto, é extremamente pertinente que se discuta a cidade. É fundamental haver um sério e amplo debate entre todos os seus habitantes, no sentido de se encontrarem mais soluções para a definição de uma filosofia de desenvolvimento e para o reforço da identidade de cada terra.

Como já dizia Ebenezer Howard em 1898, o pioneiro moderno da descentralização da cidade industrial, com a invenção da cidade-jardim, o pensamento sobre a cidade assenta em 3 princípios fundamentais:

- A terra devia pertencer à comunidade;
- Todas as pessoas deviam estar envolvidas no planeamento;
- Devia haver harmonia entre o espaço construído e o ambiente natural.

Hoje, tal como em 1898, é fundamental que as pessoas “vivam” verdadeiramente o espaço onde moram... Porque a terra ainda lhes pertence...

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Memórias...


(Congresso Nacional, Brasília)

"Deste planalto central desta solidão que em breve
se tornará em cérebro das altas decisões nacionais,
lanço os olhos mais uma vez sobre o amanha
do meu país e antevejo esta alvorada com fé
inquebrantável e uma confiança sem limites
no seu grande destino".
Brasília, 2 de Outubro de 1956
Por, Juscelino Kubitschek de Oliveira

Poucos lugares existirão tão distantes e tão... perfeitos, como a cidade de Lucio Costa e de Niemeyer.
Brasília é, de facto, uma das maiores maravilhas do mundo.

(Da minha visita em 29 de Julho, 1999)

Traços...



A contemporaneidade também é feita de...
Memórias.

(casa J Maia)

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Varinha Mágica

Foi recentemente aprovada, pela Assembleia da República, a Lei n.º 58/2007, de 4 de Setembro, que define o Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território, designado abreviadamente por PNPOT.

Sendo o PNPOT um instrumento de desenvolvimento territorial de natureza estratégica, estabelecerá as grandes opções com relevância para a (re)organização de todo o território nacional, consubstanciando o quadro de referência a considerar na elaboração dos demais instrumentos de gestão territorial e constituindo um instrumento de cooperação com os demais estados membros para a organização do território da União Europeia.

Tal documento, visa portanto (em princípio), comandar o planeamento do território português durante os próximos anos.

Assim, haver um documento deste tipo é importante, mas mais importante do que o ter é, seguramente, respeitá-lo.

Serve esta nota introdutória para que possamos perceber, nem que seja sumariamente, aquilo que ele pode representar ou influenciar para o desenvolvimento da nossa região ou do nosso concelho.

Como se sabe (?) a estrutura do Ordenamento Territorial do nosso país está, por assim dizer, assente num “sistema piramidal”, onde o PNPOT ocupa o seu topo superior.

Quer isto dizer que, o PNPOT, deverá orientar toda a lógica de desenvolvimento estratégico nacional, enquadrando o país na Península Ibérica e na União Europeia.

Num segundo patamar da “pirâmide”, surgem os Planos Regionais de Ordenamento do Território (PROT), quase todos em fase de elaboração (à excepção do PROT-Algarve, que após longos anos vislumbrou, finalmente, a luz ao fundo do túnel) e que servirão para definir as orientações de desenvolvimento inter-regionais e inter-municipais.

Na base da pirâmide surgem, por sua vez, os Planos Directores Municipais (PDM), os Planos de Urbanização (PU), os Planos de Pormenor (PP) e até os Projectos de Loteamento já aprovados.

É por isso que se perceberá, facilmente, porque existem discrepâncias tão acentuadas por esses municípios fora, sem um zonamento do solo coerente e contínuo, sem um desígnio estratégico regional.

Porquê?
- Porque cada município, com a entrada em vigor do seu respectivo Plano de Ordenamento Municipal (PDM), foi sendo gerido como se de uma “ilha” se tratasse.

Cada um “…puxa a brasa à sua sardinha…” e assim se vai (des)construindo este (irrecuperável?) recurso natural que é o nosso próprio território.

E depois, “estranha-se” que seja difícil encontrar um corredor liberto para a construção de uma qualquer infra-estrutura rodoviária e ferroviária de abrangência regional ou nacional; ou que se discutam localizações de aeroportos internacionais sem as relacionar com interfaces modais; ou que os portos de mar estejam quase sempre dissociados da rede de transportes terrestres; ou ainda que polvilhem por aí desejos em criar pseudo/áreas metropolitanas (Aveiro? Viseu? O quê?), e por aí fora…

Daí que, nesta fase, e a acreditar na boa vontade da Lei que define o PNPOT, estou convencido de que a aprovação da generalidade dos PDM’s não se efectuará nos próximos tempos.

No caso de Santa Maria da Feira, admitindo que o PROT-Norte esteja pronto no início de 2008, e que a sua efectiva aprovação seja consumada até ao final desse mesmo ano, creio que, o respectivo Processo de Revisão do Plano Director Municipal, só poderá encontrar a tal “luz ao fundo do túnel” lá para o início da próxima legislatura (XVIII Governo Constitucional).

Mas, nestas coisas, como já nos vamos habituando, nem sempre aparece associada ao mesmo “pacote” das Leis aprovadas, uma coisa chamada “Varinha Mágica”.

Por isso, aguardemos…


Post Scriptum: Há dias, em conversa com o meu amigo Costa Lobo, abordava-mos informalmente este assunto. Neste país, há excesso de leis, ainda por cima quase sempre desajustadas às realidades locais. Há ainda, acima de tudo, um extremo e desaconselhável controlo do Ordenamento Municipal, por parte das Comissões de Coordenação e de outras entidades da tutela. Os municípios, por sua vez, e injustamente, vêem as suas opções estratégicas e dinâmicas de crescimento urbano sustentabilizado, constantemente menorizadas, e permanentemente adiadas, em função de um qualquer apetite de natureza circunstancial das gentes da Administração Central, fazendo dos mesmos (municípios), uns meros “reféns” do sistema.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Colecção Berardo



"Compound group (#13, #14, #15)", 2007

Pedro Cabrita Reis

Colecção Berardo



"Composition With Yellow, Black, Blue and Grey", 1923

Piet Mondrian (1872 - 1944)

Museu Colecção Berardo - CCB, Lisboa



Fui, finalmente, ver a exposição.

A apresentação do museu Colecção Berardo oferece uma visão global, um panorama da criação nas artes plásticas do século XX e início do século XXI, em especial na arte europeia e americana. Traduz toda a riqueza da história, dos estilos, das origens e dos suportes e técnicas das obras da colecção. O conjunto de obras procura traçar uma perspectiva histórica e estilística em torno de grandes conceitos como a Abstracção, a Figuração, o Surrealismo, a Arte Pop, o Hiper-Realismo, a Arte Minimalista, a Arte Conceptual, a escultura, a instalação, a fotografia e o vídeo contemporâneos.

A visita à colecção permite ainda uma viagem através da criação artística portuguesa moderna e contemporânea, colocando em destaque a sua originalidade e o lugar que ocupa na cena internacional.

Os meus destaques vão (como não podia deixar de ser) para a obra “Composition with yellow, black, blue and grey”, 1923, de Piet Mondrian (1872-1944) e para “Compound Group (#13, #14, #15), 2007, de Pedro Cabrita Reis.

O Museu Colecção Berardo (José Berardo, nasceu em 1944) é gerido por uma nova Fundação, criada pelo Estado Protuguês, o Centro Cultural de Belém e a família Berardo.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Os Centros tornaram-se periféricos?

As periferias tornaram-se de tal forma mainstream e genéricas que existe um real perigo da sua asséptica estetização. Será, eventualmente, por tal facto, e ainda por se terem tornado a cada passo, lugares de exclusão, que as ditas periferias nos causam um certo fascínio distante, distanciado. No entanto, mais importante que esse fascínio distante, é percebermos até que ponto as suas fronteiras se podem tornar difusas.

De forma idêntica, os pequenos centros a que nos habituámos a chamar históricos, também são, tal como as periferias, lugares de exclusão.
As lajetas de granito gasto pelo passar dos anos, a pobreza da velhice de reformas baixas, o comércio obsoleto, a idade média dos poucos habitantes ou o estado de degradação dos edifícios, são, como se pode facilmente detectar, tão centrais como periféricos.

Salvo raras e agradáveis excepções (como Guimarães), os Centros Históricos no nosso país, parecem pois, condenados ao lento e penoso envelhecimento, amarrados à imoralidade da especulação imobiliária, e ainda ao enquadramento legal que (ainda) teima em fazer arrastar, anos a fio, pelos corredores das diversas entidades que os supervisionam, centenas de processos de licenciamento.

Por outro lado, parece que virou moda a reutilização dos centros históricos como locais de culto da via nocturna. Ora, sem querer retirar o mérito deste tipo de ocupação dos centros históricos, cabe no entanto questionar a verdadeira eficácia relativamente à sua vivência urbana e respectiva complementaridade.

Ainda nesse seguimento, o comércio tradicional vai prolongando a sua intensa agonia, à espera de um qualquer procom e na esperança que não apareça na zona nova da cidade, uma grande superfície ou shopping que retire as pessoas do centro e as leve para a “periferia”.

No entanto, todos sabemos, que só com a instalação de umas “ancora” tipo Zara ou Benetton, de uma Fnac, de uma qualquer contrapartida ou de investimento de uns quaisquer Amorim, se podem salvar os centros Históricos.

Portanto, talvez só com fenómenos ligados à periferias se poderão salvar os centros.

Veja-se o caso do Centro Histórico de Santa Maria da Feira. Por muitas intervenções que se efectuem ao nível do espaço público (umas mais bem conseguidas que outras) a questão de fundo é que, não existindo atractividade suficiente para além das repartições que o Município insiste em manter na Elíseo de Castro e ainda alguns pequenos bares que funcionam essencialmente para uma reduzida faixa etária da população, a área a que chamamos Zona Histórica, não é mais do que uma pequena rua, sem dinâmica, sem movimento e, acima de tudo, sem uma vivência urbana acentuada que resista e persista para além dos serviços existentes. Ainda por cima dissociada e cada vez mais afastada do edifício que lhe deu alguma da sua história: o Castelo.

Talvez esteja na hora de se parar para reflectir. De perdermos um pouco de tempo para pensar.

Enquanto os centros continuarem periféricos e as periferias continuarem centrais, não há nada a fazer...

sábado, 15 de setembro de 2007

Referências...

"... Veneza, na laguna e na terra-firme, compartilha com o fenómeno urbano mundial a necessidade de projectar a demolição, projectar a concentração, projectar a desurbanização, temas que hoje se colocam a metade da população mundial de 6.500 milões de pessoas, residente em áreas urbanas, preferencialmente costeira...".

(José Charters Monteiro)

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

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by Ferry Zeeman

As actividades de lazer podem tornar-se perigosas?

Valerá a pena meditar, só de passagem, sobre o lazer “escondido” das práticas ilegais, em lugares públicos.

Esquecendo por instantes as considerações morais conexas, o consumo das drogas, a prostituição, o tráfico de não sei o quê, o jogo clandestino, que se passam muitas vezes no espaço público, poderão ser consideradas actividades de lazer?

Poderão essas actividades coexistir pacificamente em locais expressamente programados para o lazer – praças, jardins e parques urbanos, por exemplo?

Há um fabricante alemão de dispositivos para parque infantis que tem por método testar todos o novos produtos e equipamentos num recinto privado de acesso ao público, antes de os colocar no mercado. Os resultados desses testes mostram que, normalmente, os tais equipamentos, criados e produzidos por adultos, altamente especializados nessa área, são normalmente utilizados pelos miúdos (o público alvo) de uma forma completamente imprevisível ou mesmo contrária à expectativa da utilização para que foram criados. Tal facto, como é facilmente perceptível, origina novos problemas de segurança e de durabilidade dos produtos. A título de exemplo, imaginem uma criança a brincar num escorrega de um parque infantil: não raras as vezes, a sua maior fixação é subir a rampa do equipamento no sentido contrário ao normal movimento do equipamento com os pais a assistir e a tentar, desesperadamente, convence-la a adoptar as boas regras de utilização.

Referia então há tempos Nuno Lourenço: podemos chamar a este tipo de actividade “lazer em transgressão”?

Poderão estas acções ser sinónimo do prolongamento do espaço privativo da arbitrariedade até aos limites do tolerável pelos outros, pelos equipamentos ou pelos espaços urbanos?

Tudo isto a propósito de alguns espaços públicos ou semi-públicos que vão surgindo por estas terras onde coabitamos, como por exemplo os famosos Parques de Merendas e de Lazer: uns com projecto, outros nem por isso.

Não está em causa a necessidade desses espaços mas sim, as suas localizações, muitas das vezes periféricas e em normalmente em locais mais ou menos afastados dos perímetros ou centros urbanos.

Em todo o caso, não será também defensável a total centralização dos equipamentos.

No entanto, julgo ser correcto defender a localização dos parques temáticos nas zonas de boas acessibilidades e de razoável densidade habitacional. Os espaços de lazer dependem de muitas condições naturais específicas e nos quais é necessário combater a sazonalidade. Mas dependem, acima de tudo, da capacidade de gerar vivência.

Porque o sucesso e a maturidade de um determinado espaço público, depende, dos contactos e das inter-relações entre diferentes e variados indivíduos.

Fiscalizando, sem condicionar. Coexistindo, sem intrometer.

Porque se deve tentar, que o lazer, em espaços públicos, não se torne perigoso...

domingo, 9 de setembro de 2007

"PATAMARES... de exigência"



"... Vem aí uma nova época e, como já vem sendo hábito, sobretudo por parte dos nossos adeptos, cuja opinião é a que verdadeiramente me interessa, acompanhada de altíssimos níveis de exigência no que toca à prestação desportiva, não só naquilo que ao futebol diz respeito, mas também, porque não dizê-lo, em relação a todas as outras modalidades do FC Porto. Este desafio extraordinário e aparentemente paradoxal, sucede-se ano após ano, cresce e não é mais do que o resultado normal e lógico de quem, já tendo ganho tudo o que havia para ganhar continua com "impertinente" coragem, insistentemente na crista da vitória.

A curta história que vos vou contar, exemplo daquilo que afirmei, passou-se aqui há dias durante uma agradável conversa que mantive com um punhado de grandes portistas que fizeram o favor de me prestar uma homenagem muito sentida nas Caldas de S. Jorge e que, ao manifestarem natural curiosidade sobre os objectivos a que nos propomos a curto prazo, e onde as palavras "vencer", "ganhar" e "vitória" se multiplicavam sem cessar, eu lá os ia convencendo, das dificuldades incríveis inerentes ao facto de termos até aqui conseguido as nossas impensáveis vitórias, sempre fazendo face aos conhecidos constrangimentos económicos e à proporcionalidade do nosso país, argumentação que me parecia bem encaminhada e sabiamente compreendida pelos meus interlocutores que anuíam constantemente, dando-me razão.

Finda a palestra, um dos convivas, que é médico, soltou "apenas" este desabafo:

"Senhor Presidente: - Pronto, nós compreendemos e assim sendo, atrevemo-nos a pedir apenas mais um título de Campeão Europeu, ao menos isso!!!"

Tal qual... sem comentários!

Claro que tudo isto se poderia resumir a uma questão de "patamares de exigência", coisa que os nossos adversários se têm visto livres nos últimos tempos, relevantemente extravasado na forma como festejam alguns dos seus êxitos... Como seria noutras bandas se começassem a pré-época a vencer, como nós em Bérgamo e Roterdão?..."

(escrito por: Jorge Nuno Pinto da Costa,
em Agosto de 2007, no n.º 263 da revista "Dragões")



Nota PNCS: vêm como se confirma o título do post "Homem simples... Homem do Porto!", publicado em 17 de Agosto?
(De cá estava Eu, o António, o Jorge e o Zé. Fomos recebidos pelo Alípio e pelo Jorge Nuno)

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Vocações... de cidade

Tendo sido aprovada, há alguns anos, no Conselho de Ministros da Cultura Europeus, uma “Resolução sobre a Qualidade Arquitectónica no Ambiente Urbano e Rural”, que tem como objectivo criar as melhores condições para que seja assegurado o direito dos cidadãos a um ambiente de qualidade, conseguiu-se relembrar a Directiva do Conselho de 10 de Junho de 1985 (85/384/CEE) na qual a criação arquitectónica é considerada de interesse público.

Efectivamente, a definição de um futuro de “ambiências sustentáveis” é, cada vez mais, uma questão basilar no desenvolvimento de uma sociedade contemporânea.

Por isso, desenvolver uma estratégia integrada de crescimento é, sem dúvida alguma, um dos maiores desafios que se coloca nesta fase de Revisão dos vários Planos Directores Municipais dos diversos municípios do país.

E todo este processo só faz verdadeiro sentido se a participação das populações for evidente. Se toda a sociedade civil der a sua contribuição. No entanto, para que isso aconteça é necessário confrontar diferentes sensibilidades, para um aprofundar de todas as expectativas e de todos os anseios relacionados com o ambiente em geral, e com o desenvolvimento urbano em particular.

Se os factores económicos não se elevarem em detrimento dos factores sociais, humanos e naturais, resultará uma estratégia conjunta que permitirá a aproximação a um futuro em que será possível um verdadeiro equilíbrio entre o homem e a natureza.

Todo esse processo passa então, a meu ver, por uma profunda discussão sobre uma questão fundamental: “...Para Onde Vamos???”.

Uma unidade só é conseguida se as várias partes que a compõem atingir o objectivo a que se propõe. No caso do desenvolvimento integrado de qualquer região só é possível se, em cada uma das freguesias, em cada uma das cidades existir um “mote” ou um objectivo comum daquilo que cada região poderá ser.

À semelhança dos homens, as cidades “precisam de uma vocação, de uma filosofia própria”. Só mostrando e assumindo as suas mais-valias, elas se poderão diferenciar e ter uma visibilidade regional ou nacional.

Dizer “Não sei por onde vou, mas sei que não vou por aqui” é um começo...

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by Ferry Zeeman

sábado, 1 de setembro de 2007

Ferver em lume brando - Parte II

Sábado, 17 de Dezembro de 2005. Semanário “Expresso”. Caderno Economia.
Quinta-Feira, 22 de Dezembro de 2005. “Terras da Feira”.

Depois da leitura atenta e pausada da notícia do Expresso, compassada com a faixa “Loucos de Lisboa” (ouvi-a, repetidamente), veio-me à memória, quase sem pestanejar, o último parágrafo do artigo “Ferver em lume brando” publicado nas páginas do “Terras” no primeiro dia de Dezembro (antes quinze dias).

Nele, podia ler-se “... a questão reside em saber como exprimir as vantagens da iniciativa, isto é, como explicar que, sendo este investimento privado, uma estrutura ou equipamento desejado por todos, como é que se evitará que ele se auto-exclua da dinâmica participativa da população que, neste caso, deveria ficar assegurada pelos seus legítimos representantes, nomeadamente a Câmara Municipal”.

Confesso que, depois de perceber que afinal de contas se trata apenas de mais uma “Cidade Nova”, não me sinto com motivação suficiente para sugerir o que quer que seja, principalmente no que diz respeito à participação da Câmara Municipal (mesmo que simbólica) no desenvolvimento e promoção da operação em causa.

Refiro-me, exactamente, à transferência da Exponor para a zona envolvente ao Europarque.

No entanto, e porque, por (de)formação profissional, ainda acredito que para atingir os melhores resultados, deverá, necessariamente, ser seguido um método, um princípio e uma filosofia, não resisto a escrever mais uns pequenos parágrafos sobre esta matéria.

Como disse anteriormente, julgo ser nesta fase, a conceptual, que seja necessário definir a forma e os critérios de ocupação daquele espaço como (ainda considero possível) área de inovação tecnológica que aproveite as sinergias humanas e económicas existentes em Santa Maria da Feira.

O famoso Parque de Ciência e Tecnologia, pólo estratégico e reserva municipal dedicada ao conhecimento e inovação tecnológica não pode, ou melhor, não deve, ser injustificadamente abandonado. Ainda por cima, sabendo nós que concelhos vizinhos estão a apostar fortemente na criação de núcleos empresariais e ninhos de incubação empresarial, piscando ao mesmo tempo o olho, às universidades e institutos politécnicos no sentido do desenvolvimento de parcerias e aí promoverem cursos de nível intermédio. Estratégico não é?...

Fico ainda sem saber como se vai explicar que uma quantidade enorme de metros quadrados de terreno, vários anos cativa para os tais equipamentos estruturantes integre, agora, parte de um resort de luxo, onde um qualquer anglo-saxónico virá “destrocar” os seus dólares por um punhado de terra junto do buraco 18.

Continuo a dizer que o que está em causa não é a vinda da exponor para a Feira.
Isso, preenche, a cada um de nós, o respectivo ego, mas antes a relação humana, social, urbana e vivencial que TODO o projecto e operação poderão ter com a cidade e com o município de Santa Maria da Feira. É isso que importa assegurar. A tal “Cidade Nova” não pode ser um enclave, ainda por cima, sectário, dentro do nosso território.

E isso, quer queiram, quer não queiram, só poderá ser garantido se a Câmara Municipal assegurar a sua participação, de facto e de pleno direito, na gestão e promoção da operação.

Se verificarem, foi o que aconteceu em Matosinhos à 20 anos, aquando das negociações que levaram à instalação da Exponor em Leça. Hoje, para a Exponor ser transferida para a Feira, os responsáveis políticos de Matosinhos não tiveram de se dirigir às terras do tio Sam, para garantir que aquela área urbana não ficaria abandonada, mas vai, pelo contrário, ganhar outro fôlego e nova dinamização com actividades ligadas ao lazer e aos negócios. Estava escrito.

No nosso caso, porque não a instalação de serviços municipais naquela zona? Ou a construção do museu da Indústria (ou de Arte Contemporânea – olhem, ainda à dias a malta do CCB não queria aceitar a colecção Joe Berardo). Bom, mas isto é, apenas, um “suponha-mos”.

Já agora, para finalizar, será que os grupos económicos sediados em Santa Maria da Feira vão ser convidados a participar, de uma ou outra forma, na operação prevista?
Este é o repto que lanço, a todos.

E claro, “sem ferver em lume brando”…

(Janeiro de 2006)

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Ferver em lume brando - Parte I

A propósito da possibilidade (ao que parece, é um dado adquirido) da transferência da Exponor para território de Santa Maria da Feira, mais concretamente para a área envolvente ao Europarque, importa tecer algumas considerações que, eventualmente, possam ser tidas como um válido contributo no profícuo debate que, certamente, decorrerá no seio da comunidade feirense.

É que, pelo que vai sendo globalmente aceite, a questão é mesmo muito importante para o nosso município, na medida em que, trará mais desenvolvimento económico, possibilitará a criação de centenas de postos de trabalho, de áreas urbanas e equipamentos de qualidade, campos de golfe, estruturas hoteleiras, etc, etc, etc...

No entanto, permito-me recusar participar nesta “conspiração eclética” de conferir, levianamente, a esta (ou a outra qualquer) eventual acção, elevados ou diminutos graus na sua contribuição para o desenvolvimento de Santa Maria da Feira, enquanto espaço físico-social onde co-habita quase 1% da população portuguesa.

Começo, aliás, por referir que a minha forma de ser me obriga a não ferver em lume brando e a não arriscar conclusões precipitadas na avaliação de uma qualquer, mais ou menos mediática, operação de natureza económica, social e urbana. Portanto, procurarei, independentemente do sentimento regionalista ou meramente bairrista, analisar com um certo desprendimento, os possíveis resultados da coisa, tendo em conta o binómio projecto-investimento/situação ocasional.

Se é verdade que a vinda da Exponor para a Feira é uma questão que todos nós devemos acolher com agrado, não é menos verdade que será agora, nesta fase, a conceptual, que será necessário definir a forma e os critérios de ocupação daquele espaço, como área de inovação tecnológica que aproveite as sinergias humanas e económicas existentes neste concelho, bem como a sua localização estratégica a sul da Grande Área Metropolitana do Porto e da grande região do noroeste ibérico.

Ao mesmo tempo, a confirmar-se, esta será talvez, depois da Expo 98, a possibilidade que o país e Santa Maria da Feira têm de mostrar à Europa que também é possível fazer projectos de qualidade, integrados na cidade e na região, qualificados urbana e paisagisticamente, que funcionem como um pólo aglutinador de desenvolvimento económico e social.

Nesse sentido, importará assegurar que o grandioso projecto não irrompa apenas como encenação faraónica ao jeito de uma qualquer segunda Quinta do Lago, segregadora, sem identidade, não diversificada, e que se permita excluir de toda a lógica vivencial e das pessoas de Santa Maria da Feira.

Mais uma vez, será de (re)lembrar que o metropolitano de superfície está já ali na Avenida da República de Gaia, que o Aeroporto Francisco Sá Carneiro se encontra a pouco mais de 30 quilómetros, que o porto de Aveiro é aqui ao lado, que a dez minutos de automóvel se poderá desfrutar de uma extensa costa atlântica, que o centro histórico da feira pode e tem potencial para ser revitalizado, que as termas de Caldas de S. Jorge esperam e fornecem banhos retemperadores, que a visita ao Douro vinhateiro também pode começar no Porto Carvoeiro...

Ou seja, o novo e importante projecto não se poderá dissociar de toda uma lógica vivencial existente ou a programar em seu redor, ao mesmo tempo que deverá ser capaz de antecipar, com o intervalo de uma geração, aquilo em que se poderá tornar Santa Maria da Feira bem como a Grande Região Metropolitana do Porto.

Como em tempos referi, todas estas questões de natureza urbana e económica, não se poderão afastar muito de uma combinação singular com a seguinte dimensão: o investimento voluntarista na reconstituição do tecido social de solidariedade. - Este é um caminho por (re)descobrir, e sobre o qual temos pensado pouco. Estou a falar, por exemplo, do envolvimento da população na valorização dos serviços de proximidade, nas formas de economia social, no envolvimento dos comerciantes e empresários locais na promoção e desenvolvimento da região…

Portanto, a questão reside em saber como exprimir as vantagens da iniciativa, isto é, como explicar que, sendo este investimento privado, uma estrutura ou equipamento desejado por todos, como é que se evitará que ele se auto-exclua da dinâmica participativa da população que, neste caso, deveria ficar assegurada pelos seus legítimos representantes, nomeadamente a Câmara Municipal.

Creio estar tudo em aberto.
E tudo isto, “sem ferver em lume brando”…

(Dezembro de 2005)

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by Ferry Zeeman

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Capacidade de Gestão

Porque razão, recentemente, se tem falado tanto em capacidade de gestão? Ninguém sabe. Alguns políticos do nosso burgo talvez saibam (uma vez que sabem um grande número de coisas) mas não dizem ou não desenvolvem.
Pois eu, meus caros, recuso-me a participar nesta conspiração eclética de conferir, levianamente, a determinadas personagens, elevados ou diminutos graus na capacidade de gestão da coisa.
Começo, aliás, por dizer que... não “alinho na onda” e tento não arriscar conclusões precipitadas na avaliação do desempenho de um qualquer dirigente. Portanto, procuro, independentemente do gosto cromático da discussão, analisar com independência e rigor os resultados de qualquer desempenho, tendo em conta o binómio projecto-investimento/situação ocasional.
A verdade é que não é fácil avaliar.
Da última vez que tentei julgar positivamente a actividade dos nossos governantes, tive uma enorme surpresa. Ou talvez não.
Falo por exemplo da criação e desenvolvimento das grandes áreas metropolitanas, Depois daquele “motivador” debate, o que foi feito? Ou ainda da regionalização...
Entendo, portanto, que a tal avaliação de desempenho ou da famosa capacidade de gestão deve ser feita através daquilo a que, em linguagem corrente se chama Tempo.
E se alguns, ano após ano, se vão repetindo e martirizando com a esperança de idealizar o não adiamento do dito desenvolvimento e dos resultados, outros há, que, confrontados com os mais invariáveis imprevistos, darão o mote para o desenvolvimento, sustentabilidade e prestígio das instituições ou organizações que lideram, facto que, inevitavelmente, nos aconselha a pensar.
Há dias, a jornalista e escritora Clara Ferreira Alves dizia “…Ando há anos a educar este povo…”. Meus amigos, eu, ao contrário dela, procuro há anos educar-me com este povo.
E por isso é que cada um, per sí, deverá avaliar e reflectir, para finalmente, poder julgar.
Serenamente...

sábado, 25 de agosto de 2007

Atitudes Sustentáveis

Motivar o aparecimento de acções integradas que permitam um crescimento equilibrado e sustentado de uma região é, sem dúvida alguma, um objectivo comum que servirá de base para uma orientação global na revisão dos Planos Directores Municipais existentes no país.
Hoje, mais do que nunca, há uma quase completa percepção de que na essência, todos os problemas são comuns. Os obstáculos ao desenvolvimento dos diferentes municípios de cada distrito ou região vão no mesmo sentido; as diferentes freguesias dentro de um mesmo concelho têm ambições equivalentes. Por isso, a diferenciação entre cada uma dessas estruturas no futuro, estará na forma e na sua capacidade de se reconciliarem com o espaço natural e os seus habitantes.
Aliás, essa é a questão basilar na definição de critérios e directrizes para a ocupação do solo. A procura de filosofias de orientação para cada freguesia ou cidade, a existência de um “mote”, um motivo, um “para onde vamos?”, é absolutamente fundamental para a criação de um modelo de gestão que assegure um futuro de atitudes compatíveis com um desenvolvimento integrado e sustenta(do)vel.
Tudo isto a propósito das ideias que circulam no concelho, e que têm a ver com a revisão do Plano Director e particularmente com a hipotética criação de novas zonas industriais.
Como será do domínio geral, Santa Maria da Feira possui algumas particularidades que importam reflectir numa primeira fase. É uma região que ao longo de muitos anos foi alvo dos mais diversos tipos de iniciativas e investimentos financeiros, tanto comerciais como industriais, públicos ou privados, que sem dúvida alguma trouxeram fontes de riqueza e de mão-de-obra que nos colocam num dos concelhos mais ricos do distrito ou mesmo do país.
No entanto, é evidente que a coexistência de industrias em aglomerados populacionais ou urbanos aparece como um real constrangimento a uma assimilação de uma correcta qualidade vivêncial que se espera nos dias de hoje.
Efectivamente, as características morfológicas do território de Santa Maria da Feira apresentaram-se desde sempre como um constrangimento a um regular crescimento das diversas estruturas industriais ou armazéns. Se por um lado, equipamentos de carácter familiar se foram transformando em grandes unidades geradores de mão-de-obra, a não existência de regras claras na legislação, foi contribuindo para que, dentro dos próprios aglomerados urbanos, surgissem grandes conjuntos industriais.
No entanto, com a elaboração e aprovação do Plano Director Municipal em 1993, houve então, o início de uma estratégia que visava essencialmente, a ordenação do território e uma melhor orientação programática do concelho.
Foram definidas várias áreas destinadas a indústrias, criados alguns parques industriais, mas que rapidamente atingiram níveis de ocupação que nos permitem assegurar que o problema ainda não está totalmente resolvido. A reforçar esta posição estão as permanentes opiniões de vários cidadãos feirenses que solicitam a criação de zonas industrias e mais áreas de construção preferente. Dizem alguns que construção é sinónimo de desenvolvimento. Dizem outros ainda que, a sua freguesia terá de contemplar a tão desejada zona industrial para evitar a perca desse valor económico e social.

Creio, que nesta questão há quase uma absoluta falta de razão.
Em primeiro porque a construção não é necessariamente sinónimo de desenvolvimento; por outro lado, porque temos de nos convencer que não é possível contemplar cada uma das freguesias do concelho com zonas industriais, mantendo os níveis ambientais e vivênciais de forma equilibrada.
A possibilidade de definir de uma forma concertada, tendo em conta aspectos de âmbito social, urbanístico, ambiental e acessibilidades, a organização funcional (organograma) do concelho, apresenta-se como a base para um futuro em que seja possível a reconciliação do homem com a natureza.
Logo, temos de encarar a possibilidade de, em conjunto, encontrar-mos uma fórmula que dê resposta a todos esses anseios. A deslocalização de industrias que se encontrem em aglomerados urbanos e a possibilidade de construção de novas unidades em áreas industriais criadas de raiz é necessário que seja encarado positivamente pelos empresários.
A criação de três grandes zonas industriais (devidamente infra-estruturadas) que estabeleçam uma plataforma triangular de correlações funcionais, apresenta-se, na minha opinião, como garantia para um grande passo no desenvolvimento económico/social do concelho.
Julgo que essas três áreas poderão ser encaradas como base para surgirem parques industriais temáticos: área sul do concelho – preferencialmente destinada à indústria do calçado; área norte – indústria corticeira; área nordeste ou central – industria ligada aos têxteis, metalurgia e construção.
O critério de implementação deverá ter em conta as acessibilidades bem como a procura da sua correcta integração na paisagem, definindo para isso, os conceitos de ordem funcional, estética, social e económica.
A ideia de que na cidade e no urbanismo existem quatro funções: habitar, trabalhar, circular e recrear é pertinente.
O objectivo é não as encarar de forma isolada.

(Junho de 2001)

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Traços de Urbanidade



Bolsas verdes também contribuem para a valorização do espaço edificado...

Reflectindo a cidade: um corpo em permanente mutação

A cidade não é mais do que uma parte do conjunto económico, social e político, que constitui a região.
Quando se fala em cidade, há que fazer uma análise teórica desse mesmo termo:
- Cenário físico da vida humana – objecto dos arquitectos e dos historiadores de arquitectura;
- Cidade como corpo social – objecto dos políticos e historiadores em geral.

A palavra cidade é adoptada em dois sentidos para indicar uma organização da sociedade concentrada e integrada, que começa à cinco mil anos no Próximo Oriente e que desde então se identifica com a sociedade civil; ou então, para identificar o cenário físico dessa sociedade.

O cenário físico de uma sociedade é mais duradouro do que a própria sociedade, e pode ainda encontrar-se reduzido a ruínas ou então em pleno funcionamento, quando a sociedade que o produziu já há muito desaparecera – as chamadas zonas históricas.

Nos últimos tempos muito se tem falado e escrito sobre o aparecimento e constituição de novas cidades. A elevação de vilas a cidade pode ser encarada como factor importante e basilar, no sentido de determinar um maior desenvolvimento de determinada região ou freguesia.
No entanto, é inevitável e fundamental uma abordagem mais profunda nessa matéria, no sentido de, pelos menos, se agitarem consciências, se mudarem formas de pensar, formas de estar. Só assim se chegará a uma sociedade em que o espaço físico e o espaço social se possam interligar harmoniosamente e de uma forma equilibrada.

Ao falar de cidade necessitamos, obrigatoriamente, de falar em urbanismo com as suas quatro funções:
Habitar, Trabalhar, Recrear (horas livres), Circular;
Ou seja, uma cidade tem, inevitavelmente, de conciliar estas quatro funções por forma a que possa funcionar como tal e que possa ser um excedente de bem estar para os seus habitantes e utilizadores.

Por tudo isso, a cidade deve, antes de mais, ser estudada dentro do contexto da sua região de influência (concelho). Logo, o planeamento da cidade não é mais do que um dos elementos deste todo que constitui o Plano Regional.
A cidade deve assegurar, no campo espiritual e material, a liberdade individual e o benefício da acção colectiva.
Assim, poderá aparecer como uma unidade funcional, que deverá crescer harmoniosamente em cada uma das suas partes, dispondo de espaços e ligações onde se poderão marcar, equilibradamente, as fases do seu crescimento.
Entende-se por fases de crescimento a perfeita percepção, harmonização e interligação entre as diferentes fases da história que fizeram a cidade ou região. Além de que, como é do domínio geral, o que define a história de qualquer lugar, região ou país é, sem dúvida alguma a sua estrutura urbana e componente arquitectónica, que obviamente foram executadas pelas suas gentes tendo em conta o seu modo de vida e suas diferentes motivações culturais.

Logo, uma cidade é algo mais do que o somatório dos seus habitantes: é uma unidade geradora de um excedente de bem-estar e de facilidades que leva a maioria das pessoas a preferirem (independentemente de outras razões) viver em comunidade a viverem isoladas.

Portanto, não posso deixar de, nesta fase, equacionar a elevação das vilas de Lourosa e Fiães a cidade. Não se trata de fechar portas a um eventual desenvolvimento mas sim de entender ser mais benéfico um outro modelo de estrutura e vida urbana que, neste momento essas duas Vilas poderão ainda não ter.
Não é que não tenham capacidades de as vir a Ter, mas, neste espaço temporal em que nos encontramos, não creio que, por si só, isoladas, se consigam auto-desenvolver e sustentar da forma mais correcta.
Até porque, não existem mecanismos sólidos e eficazes que consigam regular em pleno o uso do solo e as vantagens que daí poderiam advir.

Assim, o modelo que defendo, passa por tentar encontrar uma solução que permita uma evolução e desenvolvimento urbano da cidade da Feira, sede de concelho – por isso, centro social e político, e com um modelo já mais ou menos definido de cidade, que se interligue com os núcleos urbanos populosos em seu redor (S. J. Vêr, Lamas, Lourosa e mesmo Fiães –se bem que esta última se encontre “separada” das outras pela EN 1) , para que assim se forme uma URBE. - A partir daí, em seu redor e convenientemente interligados (física, social e culturalmente) se desenvolveriam todas as outras freguesias que funcionariam como “bolsas” com carácter mais tradicional, e de descompressão da vida citadina.

Trata-se de um modelo que, paralelamente, ou se quisermos, “independentemente” dos outros, poderá ser por todos analisado e, de certeza, complementado...

(Junho de 2000)

Comentários? Porque não?

Ok. Não resisto.
Se bem que em fase experimental, desafio os leitores a deixarem o seu comentário aos meus post's.
Se estiverem para aí virados...

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

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by Ferry Zeeman

Uma nova vida nas cidades

O clima na Terra está a mudar. Secas na Amazónia, enchentes na América do Sul, expansão da malária e outras doenças, o derrentimento dos gelos próximos dos polos do planeta com a diminuição dos habitats de pinguins e ursos polares são fenómenos cada vez mais presentes nos noticiários e publicações da especialidade. Os especialistas afirmam que estas são as primeiras manifestações das mudanças climatéricas que enfrentaremos num futuro próximo, provocadas por alterações na composição química da atmosfera do Planeta.
A indústria, a produção de energia e o transporte queimam quantidades enormes de petróleo, carvão mineral e gás natural, gerando anualmente, bilhões de toneladas de dióxido de carbono que são lançadas à atmosfera, alterando assim o seu delicado equilíbrio. O problema é que o dióxido de carbono actua na atmosfera como as paredes de vidro numa estufa de plantas, segurando parte do calor que, na sua ausência seria difundido para o universo. É vulgarmente chamado efeito de estufa.
Se queimarmos mais de um quarto das reservas hoje conhecidas de petróleo e outros combustíveis fósseis estaremos a quebrar de vez o equilíbrio climático e a hipotecar , talvez, o futuro das novas gerações.
Esse futuro incerto pode ser amenizado. Todos os dias o Sol nos envia energia mais do que suficiente para a satisfação das necessidades presentes e futuras da humanidade. As tecnologias de aproveitamento da energia solar e de outras fontes renováveis de energia estão disponíveis.
Assim, dentro deste “novo” conceito, e numa época em que se acentuam as preocupações ambientais na comunidade em geral, uma das muitas alternativas que podem testemunhar a nossa “(co)relação” com o meio, pode passar pelas “casas ecológicas”. E o que é isto de casas ecológicas?
Em primeiro lugar, deve-se dizer que o princípio assenta no máximo aproveitamento nos recursos naturais existentes em cada local, como o sol, o vento e a vegetação. É essa lógica que sustenta a arquitectura bioclimática, a que também se chama arquitectura solar passiva.
Chama-se a isto a optimização ambiental e energética de edifícios, bairros ou áreas urbanas. Com o aproveitamento dos recursos naturais, pode-se assistir a uma extraordinária redução do consumo de energia, que se traduzirá num maior respeito pelo ambiente bem como numa maior economia em termos financeiros de cada família, de cada comunidade.
Poder-se-íam dar numerosas formas de como esta técnica funciona. Por exemplo, nas fachadas de edifícios voltadas a Sul, deve-se, tanto quanto possível, dotá-las de amplas zonas envidraçadas como forma de aproveitamento do sol; de seguida podem plantar-se árvores de folha caduca, de forma a sombrear no verão e Ter sol no inverno; as fachadas a norte, como são zonas sem incidência solar, podem-se proteger dos ventos através de vegetação de folha persistente, etc., etc..
Com estas e outras soluções, impede-se assim o aquecimento vindo do exterior no verão e a fuga de calor no inverno. Com bons isolamentos térmicos, mas sem ar condicionado.
No entanto, as vantagens para o ambiente das casas ecológicas passam necessariamente por uma perspectiva mais ampla, e não apenas individual, de criação deste tipo de construções. As urbanizações ecológicas, que permitirão uma melhor qualidade de vida e ambiental em espaços urbanos mais densamente povoados, serão num futuro (espero que) próximo a solução.
No nosso país podemos assistir a alguns recentes exemplos, principalmente na área urbana da zona oriental de Lisboa – Expo 98. É o caso da Torre Verde, que foi o primeiro edifício habitacional bioclimático, e onde se aplicam os princípios da arquitectura solar passiva, que possui igualmente painéis solares na cobertura. Atinge-se assim uma redução de consumo de energias convencionais em 80% e de 70% em emissões de dióxido de carbono. O espectacular Pavilhão Multiusos (Pavilhão da Utopia durante a Expo) foi também um dos edifícios optimizados do ponto de vista ambiental e energético. Os seus projectistas e promotores apostaram na ventilação e iluminação natural, elevado isolamento térmico e pré-arrefecimento do ar fornecido através da água do rio.
Tudo isto, poderá parecer um pouco estranho e, eventualmente despropositado. E até mesmo, uma gota no oceano no panorama da defesa de uma melhor qualidade ambiental.
Mas, como diria alguém “...a vida é feita de pequenos nadas...”.

(Setembro de 1999)

(A)BALADA DAS ÁRVORES

Muitas das estradas do nosso país são caracterizadas pelas suas bordaduras de árvores de sombra, que lhes conferem um encanto especial e as distinguem das outras vias.
Quem não se recorda daquelas estradas que, numa tarde de Verão e a meio de uma viagem, conferem uma agradável sensação de frescura aliada àquela luz filtrada por esses túneis verdes. Ficam geralmente na memória as belas estradas Ribatejanas, as da zona do Buçaco ou as de algumas estâncias termais do nosso país.
Isto porque, nos últimos tempos, tem-se assistido a uma verdadeira “caça às árvores” nas bermas das estradas. E as razões, dizem, são até convincentes:
- As árvores fazem com que as estradas fiquem muito estreitas;
- As árvores antigas constituem um enorme perigo para os automobilistas e peões pela queda de folhas e ramos secos ou até mesmo das próprias árvores;
- A circulação numa estrada com árvores na berma provoca sonolência; etc...

Por outro lado, quando há zonas industriais ao longo das vias, a primeira coisa que os seus promotores fazem é uma devida terraplanagem, nivelamento do solo, e claro, arrancar todas as árvores existentes. Mesmo nos limites do terreno, em zonas onde não é permitido construir, procede-se ao abate das árvores.
Se assim não fosse, como é que seriam visíveis as imponentes instalações fabris e os grandiosos painéis publicitários ou ainda os néons de iluminação intermitente?

Quando se trata de moradias, nem pensar deixar árvores na frente! Como é que o povo poderia apreciar o esforço que o dono da casa (que em muitos casos teve influências migratórias) despendeu para construir a casa dos seus sonhos? Como é que poderia ver uma réplica da torre eiffel? Como é que poderia ver o galo de Barcelos em ponto grande? Como é que poderia ver aquelas estátuas de qualidade e desenho duvidoso? Enfim, a casa não pode ficar escondida e ensombrada pelo arvoredo.

Para finalizar, e atendendo a esta mania que alguns pseudo-profissionais da arquitectura e engenharia têm de programar as coisas, deixo-vos com esta pequena história:

- Imaginem uma região bastante conhecida pelas suas características naturais, pelo tipo de construções, pelo tipo de vivência – e que por tudo isto é procurada por muitos visitantes.
Para daí se retirarem proveitos, facilitando os acessos aos turistas, alargam-se as estradas, derrubando as árvores, surgem vias-rápidas, constróem-se grandes edifícios, desvirtua-se por vezes toda uma vivência e características de um todo...

O final da história poderia então ser este:

- No fim da rua, vai surgir um enorme shopping center, religiosamente decorado com enormes árvores e densa vegetação – em plástico, mas que até parece real – e, algumas paredes, serão apresentadas com pinturas de reconstituições perfeitas da paisagem entretanto desaparecida.
Tudo isto no interior.
E claro, com ar condicionado...
Estarei longe da verdade?

(Fevereiro de 1999)

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Homem Simples... Homem do Porto!



Não temos dúvidas quanto à existência de poucas personalidades, cuja grandeza emocional, institucional e desportiva, nos remetem para o mais profundo sentimento sobre a nossa forma de “praticar” cidadania.
Assim, uma enorme emoção inibe-me de o descrever através de rebuscadas adjectivações e palavras. Protejo-me por isso na expressão “Homem simples... Homem do Porto”.
Numa época em que o “(des)norte” parece evidente, continua a ser ele um dos poucos que vai remando contra as “marés” do centralismo cada vez mais desavergonhado da capital.
Apenas por uma, só uma razão: PORTO.
Com a simplicidade do costume, Jorge Nuno Pinto da Costa recebeu-nos no seu gabinete do “Dragão”, às 18 horas do dia 25 de Julho.
Motivo? - Agradecer a festa de homenagem realizada um mês antes pelos Amigos de Caldas de S. Jorge.

(um obrigado ao António que nos proporcionou esta memorável jornada)

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Entardecer na Europa Ocidental e África

E as outras pequenas Maddie’s?

Talvez um dia, ainda venha a ser um “case study”, a forma como o caso do desaparecimento da pequena Maddie tem sido tratado em (quase) todos os meios de comunicação social de âmbito nacional.
Existem diferentes opiniões sobre os reais benefícios que esta mediatização tem causado no razoável prosseguimento de toda a investigação policial.
De qualquer forma, uma coisa é certa: a cobertura efectuada desde a praia da luz, ao desaparecimento desta menina inglesa contrasta, fortemente, com o tratamento conferido no anterior caso da portuguesa “Joana”. Repare-se que a Joana nem sequer mereceu o adjectivo de proximidade “pequena”, como disse Pacheco Pereira.
É. Realmente o status, a classe, a condição social, a nacionalidade, o local das férias, as relações públicas, ainda pesam bastante naquilo a que os jornalistas vulgarmente apelidam por “linha editorial”.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Traços



Uma visão crítica sobre o sempre importante espaço de entrada numa habitação...
A pedra, a água, o ar;
A luminosidade;
O Objecto...

(casa J Maia)

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by Ferry Zeeman

domingo, 12 de agosto de 2007

A identificação de um lugar

A identificação de um lugar é feita, muitas vezes, através de simples gestos, palavras ou frases. Mas, procurar para cada lugar uma única palavra que o defina, obriga a um arriscado exercício de síntese. No entanto, todo o imaginário em torno dos lugares e dos “sítios”, que se desenvolve também a partir de tensões e frustrações próprias de cada um, suporta a legitimidade desse exercício.
Se, por exemplo, Wim Wenders arriscou a sonoridade de Lisboa num filme, nós talvez pudéssemos arriscar a luz. Para Lisboa proporíamos assim o termo LUMINOSIDADE. Pensemos também em Aveiro. Para Aveiro, com todos os seus canais, proponho ... NAVEGABILIDADE. Para o Porto... Para o Porto a palavra PORTO, e assim por diante.

E Caldas de S. Jorge? Esse lugar, esse “sítio”?

Não temos quaisquer dúvidas quanto à existência de um forte e peculiar imaginário colectivo, até porque, esse lugar, viveu momentos de tensão permanentes. Viveu tempos em que o Uíma, esse rio único, suportava as alegrias e as tristezas daquelas gentes. Ponto de encontro. Lugar de trocas de conhecimento geracional. E o parque das termas? Elegante. Local de amores e desamores. Fonte de inspiração para as telas dos pintores mais desassossegados. Espaço onde as diferentes gerações cresceram e aprenderam a viver com a ressaca do jogo do faz de conta. Assim, para esta vila, uma grande emoção inibe-me de arriscar uma única palavra. Poderemos proteger-nos, portanto, com duas palavras: CENOGRAFIA E IMPONDERABILIDADE.

Cenografia própria de lugares cuja paisagem, habitantes e ambiente urbano, por si só, representam a memória de tempos passados e presentes. O outro lado do espelho.
Imponderabilidade porque esta palavra fez muito pela aldeia que agora é vila. Nesse lugar, quase irreal, existe uma norma constante e intransponível mesmo para os mais poderosos e que sobreviveu a todas as evoluções e transformações dos tempos. Uma norma muito simples. Essa norma é o sentimento de posse colectiva do espaço público – do parque. Este aspecto, aparentemente irrisório, produz a estabilidade necessária ao imaginário, por vezes sofrido, que a vila propõe.
E por isso é importante que o espaço seja animado. É importante que não se torne num local secundário, escuro e triste. Atrevo-me por isso a lançar o desafio de, numa recuperação e readaptação das ambiências existentes nos anos 50, 60 e 70, com os bailes e as sonoridades a “invadirem” toda aquela bolsa verde, ser criado um espaço vocacionado para a interpretação e recriação musical – quiçá um PIANO BAR – no átrium das termas (edifício primitivo) que possa capitalizar e trazer de volta toda a elegância que esse lugar merece, reforçando também assim, o carácter de democraticidade que ele encerra.

E, numa altura que muito se tem falado do turismo e na forma como este pode ser um polo capitalizador de desenvolvimento económico-social, base estratégica do desenvolvimento municipal, também existem desafios a lançar. Como já referi em “desabafos” anteriores, temos um caminho importante para (re)descobrir: o investimento voluntarista na reconstituição do tecido social de solidariedade.
Falo, por exemplo, do envolvimento da população na valorização dos serviços de proximidade, nas formas de economia social, no envolvimento dos comerciantes na promoção turística da vila e da região, na criação de emprego ligado ao turismo, no turismo ligado à indústria do brinquedo (e vice-versa), na criação do museu do brinquedo, na valorização paisagística e ambiental, na qualificação e dinamização dos estabelecimentos de restauração e bebidas, etc, etc, etc.
Poderia ainda, numa perspectiva mais alargada e na lógica da “desconcentração” dos serviços (a Grande Área Metropolitana do Porto pode ser propícia a esses factos), perspectivar a transferência e funcionamento do pelouro de Turismo do município de Santa Maria da Feira, precisamente para o centro geográfico do concelho que corresponde à vila termal de Caldas de S. Jorge. Essa perspectiva, aliada a uma eficaz estratégia de divulgação no exterior, poderia ajudar na promoção e afirmação do turismo de saúde e bem estar, que tão objectivamente aí encontraria terreno fértil de desenvolvimento.

Mas isto, é tão só, um pequeno desabafo...

(Julho de 2007, in http://www.caldas-sao-jorge.blogspot.com)

Sophia

Como o rumor do mar dentro de um búzio
O divino sussurra no universo
Algo emerge: primordial projecto.

Há muito que deixei aquela praia
De grandes areias e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa.

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Mar sonoro, mar sem fundo mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.


Sophia de Mello Breyner
(ex-habitante da Praia da Granja)