Há lugares que não se medem em mapas, mas em memórias. Caldas de São Jorge é um desses lugares — feito não apenas de terra, de água e de árvores, mas também de infância, de risos soltos e de tardes que pareciam não ter fim.
Debaixo do
dossel verde do parque das termas, onde as árvores antigas guardam segredos e
sussurram histórias ao vento, crescemos. A areia do parque infantil foi o nosso
primeiro mundo: ali desenhámos sonhos com as mãos, disputámos reinos no jogo
das caricas e aprendemos, sem saber, o valor da alegria simples e despretensiosa.
E depois, o
rio - sempre o rio - espelho vivo e guardião do vale do Uíma, onde a luz do fim
da tarde se deita devagar, dourando tudo como se quisesse eternizar cada
instante. É uma luz que não se explica: sente-se. Uma luminosidade única, que
faz o tempo abrandar e o pensamento alargar.
E depois,
havia o cheiro.
Aquela brisa
morna, leve, quase tímida, mas inconfundível - o sopro mineral das águas
termais, com o seu traço de enxofre, que nos envolvia como num abraço
invisível. Não era apenas um odor; era identidade, era pertença, era casa. Era
o sinal de que estávamos exatamente onde devíamos estar.
Hoje, o tempo
seguiu o seu curso, como sempre faz. Mas há coisas que não deveriam perder-se
na corrente. Há essências que são raízes, e raízes que pedem cuidado.
Por isso, talvez ainda seja possível devolver àquele lugar não só a memória, mas também o seu perfume. Reavivando a presença discreta das águas, permitindo que a brisa quente, com o leve toque de enxofre, volte a contar a história que um dia contou a todos nós. Não como nostalgia, mas como continuidade - como um gesto sereno de respeito por aquilo que fez de nós quem somos.
Porque há
cheiros que são mais do que sensações:
- São caminhos de regresso.

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