quarta-feira, 29 de abril de 2026

Brisa que o tempo não leva


Há lugares que não se medem em mapas, mas em memórias. Caldas de São Jorge é um desses lugares — feito não apenas de terra, de água e de árvores, mas também de infância, de risos soltos e de tardes que pareciam não ter fim.

Debaixo do dossel verde do parque das termas, onde as árvores antigas guardam segredos e sussurram histórias ao vento, crescemos. A areia do parque infantil foi o nosso primeiro mundo: ali desenhámos sonhos com as mãos, disputámos reinos no jogo das caricas e aprendemos, sem saber, o valor da alegria simples e despretensiosa.

E depois, o rio - sempre o rio - espelho vivo e guardião do vale do Uíma, onde a luz do fim da tarde se deita devagar, dourando tudo como se quisesse eternizar cada instante. É uma luz que não se explica: sente-se. Uma luminosidade única, que faz o tempo abrandar e o pensamento alargar.

E depois, havia o cheiro.

Aquela brisa morna, leve, quase tímida, mas inconfundível - o sopro mineral das águas termais, com o seu traço de enxofre, que nos envolvia como num abraço invisível. Não era apenas um odor; era identidade, era pertença, era casa. Era o sinal de que estávamos exatamente onde devíamos estar.

Hoje, o tempo seguiu o seu curso, como sempre faz. Mas há coisas que não deveriam perder-se na corrente. Há essências que são raízes, e raízes que pedem cuidado.

Por isso, talvez ainda seja possível devolver àquele lugar não só a memória, mas também o seu perfume. Reavivando a presença discreta das águas, permitindo que a brisa quente, com o leve toque de enxofre, volte a contar a história que um dia contou a todos nós. Não como nostalgia, mas como continuidade - como um gesto sereno de respeito por aquilo que fez de nós quem somos.

Porque há cheiros que são mais do que sensações:
- São caminhos de regresso.

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