Vivemos um tempo que se quis moderno, mas que acabou por se esvaziar de
substância. Ao contrário do que se proclama, não é o rigor que domina mas sim,
muitas vezes, a sua ausência disfarçada. Sob a aparência de procedimentos e
formalismos, instala-se uma prática pobre, desligada da complexidade real da
vida comum.
As instituições, afastaram-se da vida real e dos cidadãos. Muitos dos seus
agentes não revelam excesso de tecnocracia, mas antes um preocupante
desconhecimento dos problemas concretos das pessoas. Falta contacto com o
quotidiano, falta escutar, falta experiência vivida. E, nesse vazio, as
decisões tornam-se abstratas, ineficazes, por vezes até injustas.
O cidadão comum transforma-se, assim, numa figura distante — quase teórica —
para quem decide. E o Estado, que deveria ser garante de equilíbrio e proteção,
surge frequentemente como uma entidade opaca, pouco confiável, incapaz de
responder com humanidade e clareza. Em vez de proximidade, impõe distância; em
vez de compreensão, oferece mecanismos frios e repetitivos.
Talvez seja esse o nosso verdadeiro desencanto: não uma fatalidade
inevitável, mas a sensação de abandono por quem devia cuidar. Um fado
contemporâneo, não cantado, mas vivido, marcado pela frustração e pela
impotência silenciosa.
Ainda assim, resta-nos um espaço de resistência. A arte continua a ser esse
lugar onde a verdade não é filtrada por formulários nem reduzida a números. Na música,
na poesia, na pintura, na escultura, na arquitectura, na dança. E também na voz
da nossa diva, encontramos aquilo que as instituições parecem ter esquecido:
emoção, consciência, ligação à realidade. Ali, há mundo, um mundo que reconhece
o sofrimento, mas também a dignidade.
Se o Estado se distancia, que pelo menos não nos afastemos de nós próprios.
Porque enquanto houver arte, haverá memória, crítica e esperança… e a
possibilidade de, mesmo no desencanto, reencontrar um certo sentido das coisas.

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