sábado, 11 de abril de 2026

Ainda há quem veja

Vivemos um tempo que se quis moderno, mas que acabou por se esvaziar de substância. Ao contrário do que se proclama, não é o rigor que domina mas sim, muitas vezes, a sua ausência disfarçada. Sob a aparência de procedimentos e formalismos, instala-se uma prática pobre, desligada da complexidade real da vida comum.

As instituições, afastaram-se da vida real e dos cidadãos. Muitos dos seus agentes não revelam excesso de tecnocracia, mas antes um preocupante desconhecimento dos problemas concretos das pessoas. Falta contacto com o quotidiano, falta escutar, falta experiência vivida. E, nesse vazio, as decisões tornam-se abstratas, ineficazes, por vezes até injustas.

O cidadão comum transforma-se, assim, numa figura distante — quase teórica — para quem decide. E o Estado, que deveria ser garante de equilíbrio e proteção, surge frequentemente como uma entidade opaca, pouco confiável, incapaz de responder com humanidade e clareza. Em vez de proximidade, impõe distância; em vez de compreensão, oferece mecanismos frios e repetitivos.

Talvez seja esse o nosso verdadeiro desencanto: não uma fatalidade inevitável, mas a sensação de abandono por quem devia cuidar. Um fado contemporâneo, não cantado, mas vivido, marcado pela frustração e pela impotência silenciosa.

Ainda assim, resta-nos um espaço de resistência. A arte continua a ser esse lugar onde a verdade não é filtrada por formulários nem reduzida a números. Na música, na poesia, na pintura, na escultura, na arquitectura, na dança. E também na voz da nossa diva, encontramos aquilo que as instituições parecem ter esquecido: emoção, consciência, ligação à realidade. Ali, há mundo, um mundo que reconhece o sofrimento, mas também a dignidade.

Se o Estado se distancia, que pelo menos não nos afastemos de nós próprios. Porque enquanto houver arte, haverá memória, crítica e esperança… e a possibilidade de, mesmo no desencanto, reencontrar um certo sentido das coisas.

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