Conta-se que, num país distante, algures na periferia do velho continente, alguns parecem querer experimentar uma nova forma de combater a pobreza.
A ideia parece simples: não basta ser-se pobre. É preciso provar que se é suficientemente pobre.
Nesse país distante, parece haver quem considere que um cidadão com dificuldades económicas, mas proprietário de um velho Fiat Punto, talvez não mereça apoio social. Afinal, quem possui um automóvel, por mais antigo e desgastado que seja, dificilmente poderá demonstar ser um pobre exemplar.
A consequência desse raciocínio é curiosa: o pobre ideal deixaria de ser aquele que "apenas" tem dificuldades em chegar ao fim do mês, passando a ser aquele que também não tem carro, não tem poupanças e, de preferência, não possui qualquer sinal de autonomia.
Se assim fosse, imagino já carreiras de autocarros cheios de cidadãos que venderam o seu velho Fiat Punto para poderem ir provar ao Estado soberano que são verdadeiramente necessitados. Todos a caminho de consultas médicas, entrevistas de emprego, repartições públicas ou do supermercado mais próximo. Porque, aparentemente, um carro velho poderia ser sinónimo de um luxo incompatível com a pobreza. Uma blasfémia essa coisa de ter automóvel.
Mas a inovação do pensamento não fica por aqui.
Nesse país distante, parece também existir a convicção de que os pobres deveriam prestar trabalho comunitário para terem acesso a apoio social. Não porque lhes seria oferecido um emprego remunerado, com plenos direitos, férias, e respectivos subsidios, mas porque a pobreza, aparentemente, exigiria uma contrapartida à comunidade.
A mensagem é difícil de ignorar: além de pobres, os pobres deveriam justificar-se por o serem. Limpar mato é uma ideia recorrente. A ajuda social deixaria de ser um instrumento de proteção para se aproximar de uma penalização. Como se a pobreza se pudesse considerar uma falha pessoal que exige correção... exemplar.
E, para completar o quadro da estigmatização, fala-se ainda nos famosos canais de denúncia.
Nasceria assim uma curiosa cultura de suspeição. O foco deixaria de estar na pobreza e passaria a estar nos pobres. Discutir-se-ia menos a insuficiência dos rendimentos e mais a legitimidade de alguém possuir um velho automóvel.
Nesse país distante, o cenário da pobreza deixaria de ser um problema social para passar a ser uma condição que deveria ser demonstrada, fiscalizada e constantemente comprovada.
Será isso?
Quero acreditar que tudo não passe de ficção. Quero acreditar que esse país distante seja apenas um cenário imaginário e que um dia se descubra que o verdadeiro objetivo das políticas sociais não é certificar a miséria, mas ajudar as pessoas a recuperar a sua dignidade e a sua autonomia.
Mas talvez
seja uma ideia demasiado ousada para um país tão distante...












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