Por entre as pedras antigas e os silêncios do Uíma que serpenteia sem pressa, fui aprendendo, ao longo dos anos, a escutar a respiração discreta dos lugares que também me foram moldando.
Bastava, por vezes, um traço quase impercetível, um
gesto de contenção, para que uma rua recuperasse a memória do seu percurso,
para que uma praça voltasse a reconhecer-se ao espelho do tempo, ou para que um
recanto reencontrasse o nome que nunca deveria ter perdido.
Dos projetos que abracei ao longo de mais de duas
décadas, nunca houve a ambição de deixar marca. Antes a vontade de prosseguir
uma conversa antiga, iniciada muito antes de nós, respeitando a gramática
silenciosa dos beirais, o desenho efémero das sombras sobre a calçada, o
murmúrio das correntes e das transparências do rio, a luminosidade que se
derrama pelas fachadas e a luz que dança, caprichosa, em cada esquina. Até
aquela brisa morna dos fins de tarde de Verão, trazendo consigo um leve perfume
de enxofre, parecia fazer parte dessa linguagem invisível que só a terra
conhece.
Se hoje alguns recordam um tempo em que a vila pareceu
reencontrar uma certa elegância, talvez isso não se deva ao que foi
acrescentado, mas ao cuidado de preservar o que já era belo. Porque há belezas
que não pedem reinvenção; pedem apenas quem as saiba reconhecer e quem tenha a
delicadeza de lhes abrir espaço para continuarem a existir.
Mas nem sempre os tempos escutam os lugares.
E talvez sejam esses os sinais que anunciam uma outra
época: aquela em que a pressa substitui a memória, em que o ruído se sobrepõe à
harmonia, e em que, por vezes, se esquece que as terras, tal como as pessoas,
também guardam uma alma.
Ainda assim, quando o sol desce sobre o vale e o Uíma
continua o seu caminho entre pedras e reflexos, permanece a esperança de que a
beleza verdadeira — a que nasce da identidade, da medida e do tempo — encontre
sempre quem a saiba ouvir.
"Memórias de um povo que não passa, deste passar de um tempo que não esquece...".

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