segunda-feira, 22 de junho de 2026

A linguagem dos lugares


Por entre as pedras antigas e os silêncios do Uíma que serpenteia sem pressa, fui aprendendo, ao longo dos anos, a escutar a respiração discreta dos lugares que também me foram moldando.

Bastava, por vezes, um traço quase impercetível, um gesto de contenção, para que uma rua recuperasse a memória do seu percurso, para que uma praça voltasse a reconhecer-se ao espelho do tempo, ou para que um recanto reencontrasse o nome que nunca deveria ter perdido.

Dos projetos que abracei ao longo de mais de duas décadas, nunca houve a ambição de deixar marca. Antes a vontade de prosseguir uma conversa antiga, iniciada muito antes de nós, respeitando a gramática silenciosa dos beirais, o desenho efémero das sombras sobre a calçada, o murmúrio das correntes e das transparências do rio, a luminosidade que se derrama pelas fachadas e a luz que dança, caprichosa, em cada esquina. Até aquela brisa morna dos fins de tarde de Verão, trazendo consigo um leve perfume de enxofre, parecia fazer parte dessa linguagem invisível que só a terra conhece.

Se hoje alguns recordam um tempo em que a vila pareceu reencontrar uma certa elegância, talvez isso não se deva ao que foi acrescentado, mas ao cuidado de preservar o que já era belo. Porque há belezas que não pedem reinvenção; pedem apenas quem as saiba reconhecer e quem tenha a delicadeza de lhes abrir espaço para continuarem a existir.

Mas nem sempre os tempos escutam os lugares.

E talvez sejam esses os sinais que anunciam uma outra época: aquela em que a pressa substitui a memória, em que o ruído se sobrepõe à harmonia, e em que, por vezes, se esquece que as terras, tal como as pessoas, também guardam uma alma.

Ainda assim, quando o sol desce sobre o vale e o Uíma continua o seu caminho entre pedras e reflexos, permanece a esperança de que a beleza verdadeira — a que nasce da identidade, da medida e do tempo — encontre sempre quem a saiba ouvir.

"Memórias de um povo que não passa, deste passar de um tempo que não esquece...".

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Ser pobre não chega?

Conta-se que, num país distante, algures na periferia do velho continente, alguns parecem querer experimentar uma nova forma de combater a pobreza.

A ideia parece simples: não basta ser-se pobre. É preciso provar que se é suficientemente pobre.

Nesse país distante, parece haver quem considere que um cidadão com dificuldades económicas, mas proprietário de um velho Fiat Punto, talvez não mereça apoio social. Afinal, quem possui um automóvel, por mais antigo e desgastado que seja, dificilmente poderá demonstar ser um pobre exemplar.

A consequência desse raciocínio é curiosa: o pobre ideal deixaria de ser aquele que "apenas" tem dificuldades em chegar ao fim do mês, passando a ser aquele que também não tem carro, não tem poupanças e, de preferência, não possui qualquer sinal de autonomia.

Se assim fosse, imagino já carreiras de autocarros cheios de cidadãos que venderam o seu velho Fiat Punto para poderem ir provar ao Estado soberano que são verdadeiramente necessitados. Todos a caminho de consultas médicas, entrevistas de emprego, repartições públicas ou do supermercado mais próximo. Porque, aparentemente, um carro velho poderia ser sinónimo de um luxo incompatível com a pobreza. Uma blasfémia essa coisa de ter automóvel.

Mas a inovação do pensamento não fica por aqui.

Nesse país distante, parece também existir a convicção de que os pobres deveriam prestar trabalho comunitário para terem acesso a apoio social. Não porque lhes seria oferecido um emprego remunerado, com plenos direitos, férias, e respectivos subsidios, mas porque a pobreza, aparentemente, exigiria uma contrapartida à comunidade.

A mensagem é difícil de ignorar: além de pobres, os pobres deveriam justificar-se por o serem. Limpar mato é uma ideia recorrente. A ajuda social deixaria de ser um instrumento de proteção para se aproximar de uma penalização. Como se a pobreza se pudesse considerar uma falha pessoal que exige correção... exemplar.

E, para completar o quadro da estigmatização, fala-se ainda nos famosos canais de denúncia.

Nasceria assim uma curiosa cultura de suspeição. O foco deixaria de estar na pobreza e passaria a estar nos pobres. Discutir-se-ia menos a insuficiência dos rendimentos e mais a legitimidade de alguém possuir um velho automóvel.

Nesse país distante, o cenário da pobreza deixaria de ser um problema social para passar a ser uma condição que deveria ser demonstrada, fiscalizada e constantemente comprovada.

Será isso?

Quero acreditar que tudo não passe de ficção. Quero acreditar que esse país distante seja apenas um cenário imaginário e que um dia se descubra que o verdadeiro objetivo das políticas sociais não é certificar a miséria, mas ajudar as pessoas a recuperar a sua dignidade e a sua autonomia.

Mas talvez

seja uma ideia demasiado ousada para um país tão distante...

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Sobre a perda do vazio


Há arquiteturas cuja identidade não reside apenas naquilo que constroem, mas na relação que estabelecem com a paisagem.

Nesses casos, o vazio não é uma ausência nem uma reserva para futuras ocupações. É parte integrante da própria obra. É o espaço por onde a luz se demora, onde o horizonte se aproxima e onde a vegetação, a água e o céu encontram lugar dentro da própria arquitetura. É também o lugar onde a obra procura um equilíbrio com o espaço natural, através da leveza, das transparências e do modo como a paisagem se reflete, subtilmente, na própria matéria construída.

Por vezes, um simples gesto de abertura, de carácter orgânico, incorpora essa intenção. Não como forma autónoma ou singularidade formal, mas como um espaço de respiração voltado ao território, capaz de enquadrar a luz da manhã, acolher a profundidade da distância e recordar que a arquitetura pode existir sem interromper a paisagem que a rodeia.

Nem tudo o que confere sentido a um edifício é matéria construída. Muitas vezes, aquilo que verdadeiramente o define encontra-se nos intervalos, nas distâncias, nas transparências e na forma como a construção reconhece a presença do lugar.

Há vazios que não se limitam a separar volumes. Aproximam a paisagem. Dilatam a escala do olhar. Permitem que o edifício respire com o território e encontre nele a medida da sua própria presença.

Por isso, em certas circunstâncias, há intervenções que alteram mais do que a sua própria dimensão física. Alteram relações. Encurtam horizontes. Interrompem diálogos silenciosos entre arquitetura e paisagem que, despretensiosamente, levaram tempo a construir.

Porque o vazio também é arquitetura. E, por vezes, é nele que a paisagem encontra forma de permanecer…