quinta-feira, 23 de abril de 2026

São Jorge


   "...andarei vestido e armado 
   com as vossas armas 
   para que meus inimigos,
   tendo pés não me alcancem,
   tendo mãos não me peguem,
   tendo olhos não me vejam 
   e nem pensamento 
   possam ter para me fazer mal.
   Armas de fogo
   o meu corpo não alcançarão,
   facas e lanças quebrar-se-ão 
   sem o meu corpo tocar,
   cordas e correntes se rebentarão
   sem o meu corpo amarrar…".

Caldas de S. Jorge | 23 de abril, dia de S. Jorge

[nas imagens, conjunto escultórico edificado na Praça de S. Jorge, em 2012]



sábado, 18 de abril de 2026

A Arte de fazer recomeçar

Há um novo tipo de património imaterial a consolidar-se entre nós: o tempo de espera.

Outrora entendido como uma variável incómoda, mas aceitável, o prazo evoluiu silenciosamente para uma entidade autónoma, quase contemplativa, que convida o comum dos mortais a um exercício involuntário de paciência e desapego. Formalizar um qualquer procedimento a um serviço público é cada vez menos um ato formal e mais uma experiência temporal imersiva.

A primeira resposta, que tende a surgir ao fim de alguns meses, raramente encerra qualquer desfecho. Pelo contrário, inaugura uma nova fase — uma espécie de segundo ato — onde se solicita, com rigor meticuloso, a entrega de elementos adicionais. Por vezes essenciais, por vezes meramente afinados ao detalhe, mas com uma qualidade constante: o poder de fazer reiniciar o tempo.

E assim, aquilo que poderia ser uma simples clarificação transforma-se, na prática, num novo começo. O processo, de forma quase imperceptível, renasce das suas próprias peças, pronto para mais um ciclo de análise serena.

Este fenómeno, repetido e progressivamente naturalizado, sugere a consolidação de um “novo normal”, onde o tempo deixa de ser enquadramento e passa a ser substância — elástico, resiliente e, acima de tudo, inesgotável.

Quem lida de perto com este tipo de situações reconhecerá, talvez com um leve sorriso, esta coreografia já familiar. 

Afinal, há rotinas que dispensam explicação.

sábado, 11 de abril de 2026

Ainda há quem veja

Vivemos um tempo que se quis moderno, mas que acabou por se esvaziar de substância. Ao contrário do que se proclama, não é o rigor que domina mas sim, muitas vezes, a sua ausência disfarçada. Sob a aparência de procedimentos e formalismos, instala-se uma prática pobre, desligada da complexidade real da vida comum.

As instituições, afastaram-se da vida real e dos cidadãos. Muitos dos seus agentes não revelam excesso de tecnocracia, mas antes um preocupante desconhecimento dos problemas concretos das pessoas. Falta contacto com o quotidiano, falta escutar, falta experiência vivida. E, nesse vazio, as decisões tornam-se abstratas, ineficazes, por vezes até injustas.

O cidadão comum transforma-se, assim, numa figura distante — quase teórica — para quem decide. E o Estado, que deveria ser garante de equilíbrio e proteção, surge frequentemente como uma entidade opaca, pouco confiável, incapaz de responder com humanidade e clareza. Em vez de proximidade, impõe distância; em vez de compreensão, oferece mecanismos frios e repetitivos.

Talvez seja esse o nosso verdadeiro desencanto: não uma fatalidade inevitável, mas a sensação de abandono por quem devia cuidar. Um fado contemporâneo, não cantado, mas vivido, marcado pela frustração e pela impotência silenciosa.

Ainda assim, resta-nos um espaço de resistência. A arte continua a ser esse lugar onde a verdade não é filtrada por formulários nem reduzida a números. Na música, na poesia, na pintura, na escultura, na arquitectura, na dança. E também na voz da nossa diva, encontramos aquilo que as instituições parecem ter esquecido: emoção, consciência, ligação à realidade. Ali, há mundo, um mundo que reconhece o sofrimento, mas também a dignidade.

Se o Estado se distancia, que pelo menos não nos afastemos de nós próprios. Porque enquanto houver arte, haverá memória, crítica e esperança… e a possibilidade de, mesmo no desencanto, reencontrar um certo sentido das coisas.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Terra prometida

 

"O atlas do Grão Kan também contém os mapas das terras prometidas visitadas em pensamento mas ainda não descobertas ou fundadas: a Nova Atlântida, Utopia, a Cidade do Sol, Oceana, Tamoé, Harmonia, New-Lamark, Icária.

Pergunta a Marco, Kublai:

- Tu que exploras tudo à tua volta e vês os signos, saberás dizer-me para qual destes futuros nos impelem os ventos propícios?

- Por estes portos não seria capaz de traçar a rota no mapa nem fixar a data da abordagem. Por vezes basta-me um breve trecho que se abre no meio de uma paisagem incongruente, um aflorar de luzes no nevoeiro, o diálogo de dois transeuntes que se encontram durante as suas deambulações, para pensar que partindo dali juntarei peça a peça a cidade perfeita, construída de fragmentos misturados com o resto, de instantes separados por intervalos, por sinais que alguém manda sem saber quem os apanha. Se te disser que a cidade para que tende a minha viagem é descontínua no espaço e no tempo, ora mais dispersa ora mais densa, não acredites que possamos deixar de procurá-la".

[in "As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino]

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Por onde fores


Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça viver uma vida ou um instante que poderiam ser seus; no lugar daquele homem agora poderia estar ele se tivesse parado no tempo muito tempo antes, ou se muito tempo antes numa encruzilhada em vez de tomar uma estrada tivesse tomado a oposta e ao cabo de uma longa volta viesse encontrar-se no lugar daquele homem naquela praça. 

Agora, dequele seu passado verdadeiro ou hipotético ele está excluído; não pode parar; tem de prosseguir até outra cidade onde o espera outro seu passado, ou algo que tivesse sido um seu possível futuro e agora é o presente de outro qualquer. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.

- Viajas para reviver o teu passado? - era agora a pergunta do Kan, que também podeia ser formulada assim: - Viajas para achar o teu futuro?

E a resposta de Marco: - O algures é um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve nem terá.


In As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino